Por Chiara Lombardi — Em uma conversa que funciona como um espelho do nosso tempo, Margot Robbie, 35 anos, voltou a falar sobre um episódio que guarda ecos da semiótica do estrelato: um caso de bodyshaming que marcou o começo da sua trajetória. A revelação aconteceu no final do episódio de “GOAT Talk” para a Complex, programa em que dividiu o microfone com a cantora britânica Charli XCX.
No bloco de perguntas “The Best & Worst Things Ever”, Charli XCX perguntou qual havia sido o pior presente que a atriz já recebera. Robbie recordou que, no início da carreira, um colega ator — um homem — lhe deu um livro intitulado ‘French Women Don’t Get Fat’. “Era basicamente um manual que dizia para comer menos”, disse a atriz, descrevendo a sensação de ter recebido um recado velado sobre seu corpo. “A minha reação foi tipo ‘Wow, vai te… amigo'”, contou, com a ironia cortante de quem entende a encenação social por trás do gesto.
A atriz deixou claro que não sabe onde está hoje aquele ator: “Aconteceu há muito tempo. Não faço ideia de onde ele esteja agora”. Charli XCX respondeu, já implicando uma dimensão de justiça simbólica: “Sua carreira acabou, querido” — um comentário que transforma o episódio individual em uma cena do roteiro oculto da indústria, onde atitudes grosseiras às vezes encontram consequências tardias.
O episódio, embora pessoal, tem relevância coletiva: é um pequeno recorte do debate maior sobre padrões de beleza, poder e microsssegurança no set. Como observadora do zeitgeist, não consigo deixar de pensar que esse tipo de presente funciona como um token da cultura que exige corpos conformes — um presente que é, na verdade, uma sentença.
Na sequência da conversa, Robbie falou também sobre seu recente trabalho em Cime tempestose, adaptação livre dirigida por Emerald Fennell, onde interpreta Catherine Earnshawe ao lado de Jacob Elordi (no papel de Heathcliff). A atriz, conhecida mundialmente por Barbie, explicou que o filme tende mais ao romantismo épico do que à provocação gratuita. “Não que não haja elementos sexuais — há —, mas é mais romântico do que provocador. É uma grande história de amor épica”, disse, lembrando que histórias desse calibre não aparecem com frequência no presente panorama cinematográfico.
Ao reelaborar esse pequeno acontecimento como peça de análise cultural, percebe-se que o gesto do livro não é apenas uma ofensa pessoal: é um artefato que revela as expectativas institucionais sobre corpos e performance feminina. Margot, ao comentar com leveza e contundência, transforma sua experiência em sinal: um convite a repensar o roteiro social que rege o corpo das atrizes.
Este é mais um capítulo da narrativa pública de Robbie, que segue se posicionando com elegância sobre temas que ultrapassam o entretenimento — mostrando que, embora o cinema possa ser escapismo, ele sempre retorna como um reframe da nossa realidade.






















