Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A noite na Milano Ice Skating Arena teve a dupla face típica do esporte de alto nível: brilho na pista e tensão nos bastidores. A seleção italiana de short track conquistou o ouro na staffetta mista e devolveu ao público uma imagem de unidade no pódio — um instante que, por si só, resume ritual e espetáculo olímpico. No entanto, a fotografia não abarca as fricções que continuam a marcar o grupo.
As palavras de Pietro Sighel, reproduzidas em entrevista ao jornal italiano Repubblica, deram combustível à discussão: “Arianna Fontana, mas quem a conhece? Di sicuro con lei non siamo una squadra, a parte i due minuti e mezzo in pista”. A frase ressoa não apenas como uma manifestação de atrito pessoal, mas como sinal de uma tensão estrutural dentro de um time que, na pista, precisa converter individualidades em cooperação.
A presença de Arianna Fontana no núcleo da equipe é complexa. Com 12 medalhas olímpicas, a atleta está a um passo de igualar recordes históricos do esporte italiano — um simbolismo que carrega peso e expectativa. Transferida há algum tempo para os Estados Unidos, onde treina com o marido e treinador Anthony Lobello, Fontana também passou por episódios públicos difíceis: há quatro anos denunciou uma tentativa de queda em treino por parte de companheiros, acusação que terminou com a absolvição dos envolvidos pela justiça desportiva (Tribunale della FISG).
Do lado de Sighel, o protagonismo veio junto de críticas externas. O bronze conquistado em Pequim nos 5000 metros — refere-se ao histórico de resultados que o credencia — não poupou controvérsias: sua comemoração de costas ao cruzar a linha final da staffetta mista foi interpretada por alguns, especialmente no exterior, como gesto de arrogância. Em sua defesa, Sighel afirmou que se tratou de um tributo ao público italiano e à vitória coletiva.
Na prática, a noite de competições prossegue com agenda apertada. A partir das 20h15 começam os quartos de final dos 500 metros feminino, com duas italianas classificadas: Arianna Fontana na primeira bateria e Chiara Betti na última. Em sequência, entram em pista os quartos dos 1000 metros masculinos. Todos os três atletas que integraram a conquista da staffetta — Thomas Nadalini, Pietro Sighel e Luca Spechenhauser — estarão em ação, buscando consolidar o resultado coletivo por meio de desempenhos individuais.
As semifinais e finais prometem manter o interesse sobretudo por aquilo que o esporte revela além do resultado: a capacidade de transformar conflito em cooperação, a gestão de carreiras personificadas por atletas com trajetórias distintas e a construção de uma memória coletiva que ultrapasse episódios passageiros. Na Itália, onde o esporte frequentemente se entrelaça com identidade regional e orgulho nacional, cada gesto e cada palavra ganham alcance ampliado.
Para quem trabalha como observador, o valor jornalístico não está apenas na medalha, mas no que a disputa expõe sobre organizações, lideranças e trajetórias. A Milano Cortina 2026 segue, assim, como um laboratório de histórias: de redenções, de atritos e, ocasionalmente, de sínteses possíveis.
Programação resumida da noite (início 20h15):
- Quartas de final — 500 m feminino (Fontana e Betti classificadas)
- Quartas de final — 1000 m masculino (Nadalini, Sighel, Spechenhauser)
- Semifinais e finais subsequentes
Uma disputa que vale muito mais que uma medalha: a própria narrativa do esporte italiano em transformação.






















