Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Mario Balotelli, atacante italiano que desde o início do ano veste a camisa do Al-Ittifaq na Serie B da Arábia Saudita, tornou público nesta semana um episódio de discriminação racista sofrido durante uma partida. Em publicação no Instagram, o jogador relatou ter ouvido insultos repetidos, entre eles a frase: “vai a mangiare una banana” — tradução literal do ataque que, em todas as línguas do futebol, remete a uma humilhação racial.
O recado do atleta foi direto: “Adesso basta” — “Agora basta”. Balotelli afirmou que o comportamento não pode ser normalizado, tolerado ou ignorado, e pediu medidas sérias para evitar repetições. “Parlo perché ci sia consapevolezza, non solo per me ma per tutti i giocatori che hanno subito una cosa del genere. Quando è troppo, è troppo”, escreveu ele, reforçando não apenas o caráter pessoal da denúncia, mas um apelo coletivo.
Como analista que observa o esporte dentro de um quadro social e histórico, é preciso lembrar que episódios assim não são acasos isolados nem mero acessório de rivalidades. O futebol, enquanto prática e espetáculo, reflete tensões identitárias mais amplas: imigração, pós-colonialismo, hierarquias raciais e dinâmicas regionais de poder. A presença de jogadores europeus e africanos em campeonatos crescentes do Oriente Médio reproduz, no campo, choques de velocidade entre modernização esportiva e estruturas sociais que por vezes permanecem autoritárias ou permissivas com a intolerância.
A responsabilidade é múltipla. Clubes como o Al-Ittifaq têm papel direto na proteção de seus atletas; ligas e federações devem dispor de mecanismos claros e rapidamente aplicáveis; torcidas e operadores de mídia precisam ser responsabilizados quando cruzam a linha do abuso. Além disso, há uma dimensão simbólica: silenciar ou minimizar significa permitir que o estádio e a televisão se tornem palcos da reprodução do preconceito.
Balotelli, figura que carrega com ele trajetória esportiva e carga simbólica — enquanto jogador italiano de ascendência ganesa que foi repetidamente alvo de episódios racistas na Europa —, coloca em evidência a persistência do problema em outro teatro do futebol globalizado. Sua denúncia é ao mesmo tempo um pedido de proteção e um lembrete doloroso de que a internacionalização do mercado não garante automaticamente a universalização de valores democráticos.
O caso, além de exigir apuração e punição, demanda um diálogo público sobre educação nos estádios, programas de inclusão e ações preventivas. Sem tais medidas, as entradas em campo permanecerão marcadas não apenas por táticas e resultados, mas por conflitos não resolvidos da nossa sociedade.
Que a resposta das autoridades e do Al-Ittifaq seja rápida e exemplar. O esporte pode ser um instrumento poderoso de integração e identidade — quando se recusa, porém, a enfrentar seu próprio tóxico interno, perde parte de sua função civilizadora.






















