Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, ainda que temporariamente, as linhas de força no tabuleiro político americano, a Câmara dos Estados Unidos aprovou uma medida para bloquear as tarifas impostas pelo Governo Trump contra o Canadá. O resultado foi apertado: 219 votos a favor contra 211 contra, com a diferença feita por seis congressistas Republicanos que romperam com a disciplina de partido.
Segundo relatos, os votos dissidentes foram de Thomas Massie, Don Bacon, Kevin Kiley, Jeff Hurd, Brian Fitzpatrick e Dan Newhouse. Esses parlamentares justificaram a escolha invocando a proteção dos interesses de seus distritos e preocupações constitucionais — uma tentativa de restabelecer os alicerces econômicos locais diante do que qualificaram como uma guerra comercial desencadeada pela Casa Branca.
Em resposta imediata, o presidente Trump usou a sua plataforma Truth Social para advertir sobre consequências políticas: “Qualquer republicano, na Câmara ou no Senado, que vote contra as TARIFAS sofrerá graves consequências nas eleições, inclusive nas primárias”, escreveu. Na visão presidencial, as tarifas funcionam como instrumento de poder: bastaria anunciá-las para amedrontar interlocutores e obter concessões.
Os dissidentes, porém, mantiveram-se firmes. Jeff Hurd ressaltou o impacto direto dessas medidas sobre agricultores e produtores de aço no seu distrito: “Considerei a Constituição e o interesse do meu distrito. Não foi fácil, mas era a coisa certa”, afirmou, desqualificando temores imediatos de retaliação política. Dan Newhouse — que já anunciou que não se recandidatará — destacou o aumento dos preços de fertilizantes e equipamentos agrícolas em seu estado, fortemente integrado ao comércio transfronteiriço com o Canadá.
O episódio é notável pela sua raridade: em um partido onde o líder informal mantém significativo controle, ver uma fratura pública com maioria tão estreita é sintoma de tensão interna. O presidente da Câmara, Mike Johnson, tentou minimizar as repercussões, descrevendo a votação como um “exercício inútil” e lembrando que o presidente pode vetar a proposta. Para superar um veto presidencial seriam necessários dois terços dos votos na Câmara — uma barreira alta dada a composição majoritária.
Importante contexto: o Senado já havia aprovado medida similar com maioria simples para cancelar as tarifas, mas, assim como na Câmara, a decisão final repousa sobre a prerrogativa da Casa Branca de sancionar ou vetar. No tabuleiro institucional, trata-se de um movimento que revela fissuras na tectônica de poder do Partido Republicano e acende um debate pragmático sobre custos econômicos versus instrumentos de pressão financeira na diplomacia comercial.
Enquanto Washington ajusta peças e prepara respostas, permanece a evidência de que decisões econômicas de alcance geopolítico reverberam até a base produtiva dos distritos — um lembrete, na cartografia da política, de que as fronteiras do poder são muitas vezes invisíveis, mas sentidas no cotidiano de agricultores, siderúrgicas e cadeias produtivas integradas entre vizinhos históricos como EUA e Canadá.






















