Por Chiara Lombardi — Em uma conversa que mais pareceu um corte de roteiro aos bastidores do espetáculo público, Carlo Conti falou pela primeira vez sobre a desistência de Pucci do Festival de Sanremo. A declaração veio durante uma videochamada de Fiorello no programa La Pennicanza, da Radio2, e revela tanto a vulnerabilidade dos artistas quanto as engrenagens que movem um grande show televisivo.
Conti disse: “Sinto muito por Andrea, do ponto de vista humano e profissional”. Ele contou que havia escolhido Pucci por sua experiência em palcos e programas variados, mas que a renúncia foi uma decisão pessoal do humorista. O motivo, segundo o apresentador, foi o receio de ser bistratado como aconteceu com Crozza em 2013, quando a reação hostil da plateia fez o imitador travar durante sua performance.
“Quem sobe no palco precisa de serenidade, leveza e espírito de diversão”, explicou Conti. “Se faltam esses ingredientes, é melhor não ir.” A lembrança do episódio com Crozza — interrompido por vaias e gritos que o deixaram sem improvisação — serve como metáfora do risco que o palco comporta: às vezes o público escreve o roteiro, e o artista precisa decidir se aceita esse jogo.
Conti também rebateu a ideia de que a substituição por nomes internacionais fosse uma espécie de alternativa: confirmou a presença de Pilar Fogliati como coapresentadora da segunda noite e enfatizou que a chegada da supermodelo Irina Shayk não deve ser interpretada como substituição de Pucci, pois sua participação já estava prevista há tempo. “Não imaginávamos que isso viraria um caso de Estado”, disse ele, acrescentando com leveza que não costuma investigar as posições pessoais ou virtuais dos artistas — algo que, admitiu, “não é sua praia”.
Com a primeira polêmica acalmada, Conti segue montando um Festival pensado por acumulação de rostos e momentos curtos: a ideia é manter o ritmo com muitos intérpretes e coapresentadores, evitando lacunas narrativas. O palco será sempre muito povoado — não apenas pelos 30 concorrentes, mas também por um esquema de “um homem e uma mulher por noite”, somando dez coapresentadores ao longo do evento, além de convidados musicais de peso.
Entre os nomes já confirmados para se apresentarem no palco ao ar livre em Piazza Colombo, junto ao Ariston, estão Gaia, Bresh, The Kolors, Francesco Gabbani e os Pooh. No time de superconvidados musicais, Tiziano Ferro foi anunciado como presença certa, enquanto Eros Ramazzotti aparece como provável. Trata-se de um cast extra-large, pensado como uma sequência de quadros curtos — uma montagem que lembra uma colagem cinematográfica, onde cada rosto é um plano que sustenta o ritmo do espetáculo.
O episódio revela algo além do casting: é o reflexo do nosso tempo, onde o palco público se transforma num espelho de tensões sociais e memórias coletivas. O receio de Pucci traduz o peso simbólico que Sanremo carrega — não é apenas uma performance, é um teste de resiliência diante da plateia e da história. Conti, por sua vez, tenta orquestrar esse conjunto múltiplo sem perder o tom da festa, buscando equilíbrio entre segurança artística e espetáculo contínuo.
Num festival pensado como um filme em episódios curtos, cada desocupação de palco e cada presença confirmada contam uma narrativa maior: o Festival não é apenas uma sequência de canções, mas um roteiro onde a cultura popular e os medos individuais se encontram, reescrevendo a própria ideia de espetáculo.






















