Por Chiara Lombardi — A nova mostra inaugurada em 11 de fevereiro em Palazzo Barberini propõe mais do que um catálogo de obras: é um ensaio visual sobre a relação entre um artista que se tornou cosmos e a família papal que ajudou a projetar esse cosmos no mundo. Intitulada «Bernini e i Barberini» e curada por Andrea Bacchi e Maurizia Cicconi, a exposição reúne cerca de 80 peças entre esculturas, obras de ateliê, desenhos e documentos que iluminam a trama entre Gian Lorenzo e Maffeo Barberini, futuro Urbano VIII.
Logo no primeiro painel do percurso, a palavra que orbita todo o argumento aparece com ambivalência: scopritore — «descobridor». Às vezes entre aspas, outras vezes fortalecida por um adjetivo que a faz soar incontestável. A pergunta que fica é aquela que atravessa a história da arte como um fio: quem descobriu quem? Foi o papa que alavancou o talento de um jovem escultor, ou foi Bernini quem, com sua energia inovadora, reconfigurou a imagem pública e o legado dos Barberini? A exposição não promete respostas absolutas, mas oferece evidências que permitem repensar o roteiro oculto dessa relação.
São expostas aproximadamente 80 obras de Gian Lorenzo Bernini, peças de seu pai Pietro e trabalhos de outros protagonistas do período. Entre mármores, pinturas, objetos, códices e documentos, o visitante percorre uma narrativa cronológica — mas também uma biografia simbólica — que mostra como Bernini se transformou de virtuoso escultor em um verdadeiro artista global: arquiteto, pintor ocasional, urbanista, criador de mobiliário e de aparatos efêmeros, além de homem de letras.
Historicamente, é imprescindível recordar que antes de Maffeo Barberini o jovem Bernini já recebera atenção decisiva de figuras como o papa Paolo V Borghese e seu sobrinho, o cardeal Scipione Borghese, que encomendaram as primeiras estátuas de um Bernini pouco mais do que vinte anos. No entanto, o papel de Urbano VIII foi singular: ao tornar-se patrono e amigo, ele ofereceu a Bernini um cenário político e simbólico onde seu talento pôde expandir-se para além do atelier. A mostra, com inteligência curatorial, problematiza se Urbano foi «o» descobridor, um descobridor ou apenas um amplificador histórico — e faz isso sem simplificações.
Mais do que uma celebração estática, a exposição funciona como um espelho do nosso tempo: ao observar o jogo de patrocínios, devoções e projeções públicas que moldaram a carreira de Bernini, somos convidados a reconhecer o eco cultural de práticas que atravessam séculos — o mecenato, a construção da imagem e o uso das artes como linguagem de poder. É o mesmo roteiro que vê nas cidades contemporâneas a arquitetura e a arte pública se tornarem palcos de identidade coletiva.
Entre os destaques, o visitante encontra peças de extraordinária força plástica e documentos que trazem à tona contratos, cartas e desenhos que eram até então pouco acessíveis ao grande público. O diálogo entre mármore e arquivo cria um efeito de reframe da realidade: a escultura aparece não apenas como obra isolada, mas como capítulo de uma história institucional e afetiva.
Ao sair da sala, permanece a sensação de ter presenciado um pequeno filme em que personagens reais e símbolos se entrelaçam. A exposição em Palazzo Barberini não pretende encerrar o debate sobre a paternidade da «descoberta» de Bernini; ao contrário, ela amplia a narrativa e convida o espectador a se tornar coautor de uma interpretação histórica. Em tempos em que rever imagens públicas é também reavaliar memórias coletivas, essa mostra atua como um convite sofisticado à reflexão: olhar para Bernini é, mais que ver mármore, ler o roteiro oculto da sociedade que o produziu.
Informações práticas: «Bernini e i Barberini», Palazzo Barberini — Gallerie Nazionali d’Arte Antica. Curadoria: Andrea Bacchi e Maurizia Cicconi. Peças em exposição: cerca de 80 obras entre esculturas, desenhos, pinturas, objetos, códices e documentos.






















