Por Aurora Bellini — Uma pesquisa italiana publicada na revista Biological Conservation acende um holofote sobre um desafio genético e de conservação que atravessa a península: aproximadamente 46,7% dos lobos analisados apresentam traços do cão em seu DNA. O trabalho, conduzido por especialistas dos Istituti Zooprofilattici sperimentali de Lazio e Toscana, de Umbria e Marche e da Universidade La Sapienza de Roma, examinou 774 espécimes recuperados mortos e leva a repensar estratégias de proteção do Canis lupus italicus.
O material estudado inclui 748 animais coletados entre 2020 e 2024 e 26 amostras históricas datadas entre 1993 e 2003. Embora os autores ressaltem que as carcaças recuperadas são uma amostragem oportunística — e, portanto, não necessariamente representem de forma absoluta a população total de aproximadamente 3.500 lobos estimada na Itália —, o volume e a consistência dos dados impõem atenção: trata-se de um dado que não se pode simplesmente ignorar.
O que os números revelam
Da análise genética emergem duas categorias centrais: cerca de 29,5% dos indivíduos foram classificados como híbridos recentes (gerações iniciais e primeiros reincroces), enquanto 17,2% mostraram sinais de introgressão — isto é, vestígios de cruzamentos mais antigos, com genes caninos já diluídos, mas ainda detectáveis. A presença de híbridos de primeira geração no conjunto mais recente (2020–2024) indica que a hibridização não é apenas um resquício do passado, mas um processo que continua a ocorrer.
Os pesquisadores estimam que muitos eventos de mistura genética tenham ocorrido entre 9 e 16 anos antes do momento da amostragem, embora exista diversidade temporal nos casos identificados. Geograficamente, os híbridos e os introgressos estão distribuídos por toda a península, com maior frequência de híbridos recentes em regiões do Oeste, como Toscana, Lazio, Campânia e Calábria, quando comparadas a áreas orientais.
Implicações para conservação e políticas públicas
O achado traz à tona uma questão prática e ética sobre como gerir populações que já carregam genes de cão. A presença generalizada de assinatura canina no DNA do lobo desafia decisões de manejo, seleção de indivíduos para reintrodução e critérios de proteção legal. A Espresso Italia sublinha que políticas de conservação precisam ser guiadas pela ciência e pela sensibilidade social: medidas bruscas, como abates indiscriminados, corroem confiança e não resolvem o problema estrutural.
Entre as possibilidades estão o investimento em campanhas que reduzam a presença de cães soltos em áreas rurais, programas de esterilização e controle populacional de cães domésticos e ferais, além de monitoramento genético contínuo e centros de reabilitação que privilegiem a manutenção da integridade do Canis lupus italicus. Semear práticas preventivas e promover educação ambiental são ações que podem iluminar novos caminhos para coexistência.
Um convite à ação informada
Como curadora de progresso, vejo neste estudo um chamado para cultivar políticas que protejam tanto a biodiversidade quanto as comunidades humanas. A ciência acendeu uma luz sobre o entrelaçamento genético dos nossos ecossistemas — agora cabe às instituições, às comunidades rurais e às organizações ambientais trabalhar em conjunto, tecendo soluções que respeitem a complexidade biológica e social.
A conclusão é clara: a hibridização entre lobo e cão na Itália alcançou proporções que exigem resposta coordenada. O caminho adiante pede estratégias baseadas em evidências, diálogo com populações locais e medidas que promovam um horizonte límpido para a conservação do Canis lupus italicus, preservando seu legado genético e seu papel nos ecossistemas europeus.




















