Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma noite que ficará marcada na memória coletiva do esporte italiano, Cortina d’Ampezzo transformou sua tradição romântica em celebração nacional. Ao som do Hino de Mameli, a seleção local conquistou um duplo ouro no slittino em pista artificial — um feito inédito na história moderna da modalidade para uma só nação no mesmo dia.
Primeiro, Andrea Vötter subiu ao topo do pódio com uma descida precisa e controlada. Sessenta e três minutos depois, Marion Oberhofer, Emanuel Rieder e Simon Kainzwalder encerraram a jornada com o ouro no duplo, completando um capítulo raro e poderoso para o esporte italiano. A imagem dos atletas unidos, cantando com orgulho o Hino de Mameli, resume uma vitória que é, antes de tudo, consequência de trabalho coletivo e de estruturas que funcionam.
Essa conquista não nasce do acaso. É fruto de uma preparação metódica e da decisão estratégica de investir em infraestrutura: o novo Sliding Center de Cortina d’Ampezzo, dedicado a Eugenio Monti — o lendário “Rosso volante” —, permitiu que atletas treinassem em casa, sem a necessidade de emigrar para centros estrangeiros ou depender de convites caros das pistas anfitriãs.
O slittino italiano tem raízes firmes no Tirol do Sul. Desde os primeiros passos competitivos, nomes nascidos e forjados nas valli do Tirol do Sul dominam os registros de Olimpíadas, Mundiais e Europeus. A história remonta a figuras como Walter Hofer e Lotte Scheimpflug, a austríaca que se naturalizou italiana, presente já nos primeiros campeonatos europeus de Igls em 1951, até Erika Lechner, primeira medalhista de ouro olímpica italiana em Grenoble 1968.
Ao longo das décadas, a região produziu uma cadeia de campeões: Karl Brunner, Walter Plaikner, Ernst Haspinger, Paul Hildgartner — cujas conquistas internacionais moldaram a identidade do esporte — e os irmãos Huber, entre outros. Gerda Weissensteiner, com seu ouro em Lillehammer 1994 e múltiplas taças mundiais, simboliza a continuidade dessa escola. Observa-se, portanto, que o sucesso de agora é herdeiro de uma tradição consolidada.
A chegada de Armin Zöggeler no início dos anos 1990 consolidou uma nova era de excelência. Recrutado ainda jovem para a Copa do Mundo e mais tarde integrante das instituições esportivas como os Carabinieri — mesma via seguida por Emanuel Rieder e Simon Kainzwalder —, Zöggeler personificou a fusão entre talento individual e suporte institucional.
O que torna o duplo ouro de Cortina especialmente relevante é que ele acentua um modelo esportivo que combina memória, identidade regional e investimento público-privado em infraestrutura. Em um país onde o esporte frequentemente reflete tensões e orgulhos locais, essa noite oferece uma narrativa diferente: a de um sucesso nacional que brota de uma base regional sólida.
Como analista, não me detenho apenas no pódio; observo os mecanismos que o tornam possível. O Sliding Center Monti é hoje um exemplo tangível de como a preservação da tradição, aliada à visão estratégica, pode transformar uma disciplina de nicho em protagonista de uma celebração coletiva. A Itália, nas encostas geladas de Cortina, não comemorou apenas medalhas — reafirmou uma história construída aos poucos, com disciplina, recursos e memória.
Esta noite, Andrea, Marion, Emanuel e Simon não apenas ergueram taças: restituíram ao slittino italiano a centralidade que sua longa tradição sempre justificou.






















