Por Alessandro Vittorio Romano — Quando falamos de cuidar do coração, muitas vezes o debate se resume a escolher entre reduzir gorduras ou carboidratos. Um amplo estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology (JACC) nos convida a ouvir uma outra voz, mais parecida com o sussurro da terra: é a qualidade da dieta — não apenas a quantidade de macronutrientes — que parece guiar melhor o risco de doença coronária.
Pesquisadores liderados por Zhiyuan Wu, da Harvard T.H. Chan School of Public Health, acompanharam quase 200 mil adultos nos Estados Unidos por mais de 30 anos — um conjunto impressionante de dados que totaliza mais de 5,2 milhões de anos-pessoa e 20.033 casos documentados de doença coronária. A mensagem que emerge é clara e sensata: versões “saudáveis” tanto de dietas com baixo teor de carboidratos quanto de baixo teor de gorduras estão associadas a um menor risco de problemas coronarianos; já as versões baseadas em alimentos refinados e produtos de origem animal estão ligadas a um risco aumentado e a perfis metabólicos menos favoráveis.
Talvez o aspecto mais reconfortante desta pesquisa seja sua simplicidade prática. Em vez de se perder no debate técnico sobre porcentagens de macronutrientes, os autores propõem índices alimentares que ponderam as fontes desses macronutrientes. Assim, uma dieta low-carb construída com muitas verduras, cereais integrais e gorduras insaturadas floresce como um jardim que nutre o corpo. Em contrapartida, um regime com pouca gordura mas rico em carboidratos refinados ou carnes processadas traz consigo o tipo de erosão lenta que sufoca o bem-estar, como um inverno prolongado para a paisagem interna do organismo.
Os efeitos metabólicos documentados reforçam essa visão: padrões alimentares mais saudáveis correlacionam-se com níveis mais baixos de triglicerídeos, aumento do colesterol HDL e redução de marcadores de inflamação. Em linguagem poética, poderíamos dizer que a escolha dos alimentos ajusta o “tempo interno do corpo”, regulando a respiração das células e as marés do sangue.
Os autores também oferecem uma explicação plausível para resultados conflitantes de estudos anteriores: duas pessoas podem seguir ambas uma dieta chamada “low-carb”, mas uma basear-se em legumes, nozes e azeite, e outra em carnes gordas e produtos industrializados. Os efeitos sobre o coração, claro, não serão os mesmos.
Como observador atento do cotidiano, proponho um convite prático e sensorial: trate a sua alimentação como uma colheita de hábitos. Priorize alimentos de origem vegetal, grãos integrais, peixes e óleos vegetais; evite o excesso de farinhas brancas, açúcares e processados. Pequenas escolhas assim compõem, com o tempo, uma paisagem nutritiva que protege o coração e acalma a inflamação.
Em suma, a ciência atual nos lembra que a saúde cardiovascular não é uma equação de somar ou subtrair macronutrientes, mas um mosaico de escolhas de alimentos. Cuidar do coração é, acima de tudo, cuidar da qualidade do que chega ao prato — e dessa forma nutrir o corpo como se cultivássemos um pomar que dará frutos por muitos anos.






















