Por Stella Ferrari — Em um depoimento de alta visibilidade no tribunal civil de Los Angeles, Adam Mosseri, chefe do Instagram, rebateu acusações de que as plataformas digitais criam “dependência” entre jovens. No terceiro dia de audiências do processo que envolve Meta e Google, Mosseri enfatizou a diferença entre dependência clínica e “uso problemático”, expressão adotada também internamente pela empresa.
Ao responder ao advogado da autora, Mark Lanier, Mosseri afirmou: “É importante distinguir entre dependência clínica e uso problemático”. O interrogatório, que ocupou o dia inteiro, não trouxe revelações bombásticas, mas serviu como ensaio para a aguardada testemunha Mark Zuckerberg, prevista para 18 de fevereiro. O julgamento — com data prevista até 20 de março — pede aos 12 jurados que avaliem se os líderes de Google e Meta, por meio de YouTube e Instagram, projetaram conscientemente as plataformas para induzir menores a um consumo irracional com efeitos negativos na saúde mental.
O processo se concentra no caso de Kaley G.M., uma californiana hoje na casa dos 20 anos que passou a usar intensamente o YouTube aos 6 anos e ingressou no Instagram por volta dos 11, migrando depois para TikTok e Snapchat. O caso de Kaley foi escolhido como piloto entre milhares de ações que alegam que as redes sociais contribuíram para a disseminação de problemas graves entre jovens: depressão, ansiedade, anorexia e, em alguns casos, suicídio.
Durante o depoimento, Mosseri tentou relativizar o conceito de dependência: “Tenho dito que fiquei ‘viciado’ em uma série da Netflix que vi até tarde, mas não creio ser o mesmo que uma dependência clínica.” Pressionado por Lanier, ele admitiu não possuir formação médica ou psicológica para emitir diagnósticos nesse terreno. Mosseri reconheceu ainda ter usado o termo “dependência” com excessiva desinvoltura em ocasiões públicas, citando um podcast de 2020.
No dia anterior, a acusação convocou a psiquiatra Anne Lembke, que explicou ao júri como as redes podem atuar como uma espécie de “droga” para jovens, incentivando comportamentos compulsivos. Emocionadas, diversas mães de adolescentes que cometeram suicídio foram vistas no tribunal — algumas passaram a noite ao relento para garantir lugar na audiência, segundo relatos da imprensa.
Mosseri também abordou a evolução do produto: segundo ele, o Instagram ao qual Kaley se inscreveu aos 11 anos era “muito diferente” — uma aplicação menor, centrada em fotos, com “muito menos opções” do que a plataforma atual. No comando desde 2018, o executivo foi questionado sobre o possível conflito entre proteção dos usuários e metas de lucro. Sua resposta foi estratégica e direta: a proteção de menores pode, inclusive, ter impacto positivo nos resultados financeiros. “Com adolescentes nós ganhamos menos”, disse, argumentando que esse público gera menos cliques e receita.
O depoimento ajuda a calibrar o tabuleiro regulatório e mostra que o motor da economia digital exige uma calibragem fina: equilibrar design de produto, responsabilidade social e resultados econômicos. A audiência lança luz sobre o dilema que move a indústria — proteger usuários vulneráveis sem frear inovação — e antecipa um confronto de alto impacto entre evidência científica e estratégia corporativa.
Para investidores e reguladores, o caso é um teste de estresse para modelos de negócios baseados em atenção. Como em um motor de alta performance, a correta regulagem e o design de políticas públicas determinam se a aceleracão será sustentável ou se os freios precisarão ser acionados para evitar dano social e reputacional.






















