Por Marco Severini — Em mais um movimento que altera a tessitura diplomática, a França pediu a queda de Francesca Albanese, a relatora especial da ONU para os Territórios Palestinos, após declarações que Paris qualifica como inaceitáveis. O cerne da controvérsia é uma afirmação que teria definido Israel como “inimigo comum da humanidade”, expressão que motivou reação imediata do governo francês.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, subiu à tribuna do Parlamento para condenar — sem meias palavras — o que chamou de “declarações ultrajantes e repreensíveis”: segundo Barrot, tais palavras não incidem sobre políticas de um governo — que, ressalte-se, podem e devem ser objeto de crítica —, mas atacam Israel enquanto povo e nação, o que é, afirmou, absolutamente inaceitável.
Na minha análise, esse episódio não é apenas um incidente retórico; é um movimento decisivo no tabuleiro das relações internacionais. A exigência de demissão revela a delicada tectônica de poder entre Estados-membros influentes e os mecanismos de relato e responsabilização da ONU. Ao pedir a saída de uma relatora, a França procura preservar tanto a legitimidade institucional quanto os alicerces frágeis da diplomacia multilateral, evitando que narrativas absolutas corroam a possibilidade de diálogo entre partes.
Importa frisar que a função de relator especial tem por missão monitorar, documentar e reportar violações e condições no terreno. No entanto, quando a linguagem transita do julgamento político ou jurídico para a generalização que estigmatiza um povo, a linha diplomática se rompe — e surgem pedidos de responsabilização que têm repercussões institucionais. Trata-se de um refinado jogo de peças: críticas a políticas podem ser toleradas; afirmações que essencializam um coletivo tendem a produzir rejeição formal.
Do ponto de vista prático, a exigência francesa coloca em evidência a necessidade de regras claras para conduta de relatores e especialistas independentes, bem como o impacto que declarações públicas têm sobre a percepção de imparcialidade. Em termos geoestratégicos, manter o equilíbrio é essencial para evitar o redesenho de fronteiras invisíveis nas narrativas internacionais — um risco perceptível sempre que a retórica ultrapassa os limites do debate técnico-diplomático.
Embora a situação ainda seja dinâmica e careça de desfecho formal, a mensagem de Paris é inequívoca: há um limite civilizatório entre criticar políticas e deslegitimar um Estado-nação enquanto coletivo. O caso de Francesca Albanese será, muito provavelmente, examinado também pelo secretariado da ONU, que terá de ponderar entre a liberdade de expressão dos especialistas e a preservação da credibilidade institucional.
Num mundo em que as peças se movem com pressa e as alianças se redefinem, gestos como este — aparentemente administrativos — assumem dimensão estratégica. Como num lance de xadrez, cada resposta determina a configuração do tabuleiro regional e global.





















