Por Marco Severini — Em um movimento que revela mais do que uma simples votação parlamentar, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou, por 219 votos a 211, uma resolução que rejeita o uso, pelo presidente Trump, da declaração de emergência nacional para impor tarifas punitivas ao Canadá. O resultado, de margem estreita, encaminha o texto ao Senado, onde sua aprovação é considerada provável, mas pouco suficiente para sobrepor eventual veto presidencial.
Em termos estratégicos, esse episódio funciona como um toque de alerta na arquitetura do poder interno: os alicerces da maioria republicana mostram fendas, e o ato legislativo é um modo de afirmar limites institucionais ao Executivo. A votação não promete neutralizar a medida se o presidente optar por vetá-la, porém expõe uma tectônica de poder mais fragmentada no tabuleiro político norte-americano.
Durante a sessão, o próprio presidente interveio de forma direta e instrutiva, usando sua plataforma para advertir colegas de partido. Em mensagem publicada em Truth Social, Trump afirmou que “qualquer republicano, na Câmara ou no Senado, que votar contra as tarifas sofrerá seriamente as consequências em tempo eleitoral”. A retórica buscou alinhar a disciplina partidária, mas a margem apertada do resultado indica que a pressão não foi totalmente eficaz.
As tarifas em questão foram introduzidas desde o retorno de Trump à Presidência, em janeiro de 2025, e incluem um sobretaxa de 35% sobre diversos produtos canadenses no ano anterior, com reduções posteriores para importações de energia e amplas isenções relativas às mercadorias cobertas pelo acordo USMCA. Ainda assim, segundo estimativas oficiais, mais de 85% do comércio bilateral permaneceu isento graças às cláusulas do acordo de livre-comércio.
Do ponto de vista geopolítico e comercial, a resolução é mais que uma votação: é uma jogada que busca preservar canais de cooperação com um aliado histórico e mitigar o risco de um redesenho de fronteiras econômicas invisíveis — um movimento que, se mantido, pode reestabelecer estabilidade nas relações industriais e diplomáticas entre Washington e Ottawa.
Em resumo, a aprovação na Câmara representa um aviso político de peso. Ainda que a norma enfrente o provável veto presidencial, o placar é sintomático de um quadro onde a governabilidade depende de coalizões menos previsíveis. No tabuleiro do poder, a peça movida hoje pode forçar novas negociações amanhã, e os próximos lances, no Senado e nas salas de comando do Partido Republicano, dirão se prevalecerá a disciplina partidária ou a contenção institucional.





















