Milano Cortina 2026 abre uma janela ampla sobre o esporte contemporâneo: as pistas e os rinques trazem não só disputas técnicas, mas enredos que atravessam memória, direito e identidade. No primeiro dia de competições, o curling assume o centro das atenções enquanto quatro azzurre — as atletas italianas — entram na disputa do Super-G. Paralelamente, uma decisão disciplinar envolvendo o skeleton e o ucraniano Vladyslav Heraskevych reaviva o debate sobre expressão política e coerência normativa nos Jogos.
O programa diário registra partidas de curling com resultados apertados: Italia-Svizzera 3-4; Corea del Sud-USA 2-3; Giappone-Svezia 3-5; Canada-Danimarca 7-4 — entre outros confrontos que atestam o equilíbrio técnico inicial da competição. As sessões subsequentes alternaram placares similares: Italia-Svizzera 2-4; Corea del Sud-USA 2-2; Giappone-Svezia 1-5; Canada-Danimarca 7-3. Em resumo, um primeiro dia de equilíbrio que mostra como o curling tem se consolidado como disciplina de atenção para o público italiano.
No esqui alpino, as quatro representantes italianas no Super-G entram em cena com expectativa. A presença das azzurre é interpretada não apenas em termos de resultado esportivo, mas como componente de projeção regional e de formação de identidades: cada passagem na pista conta para um coletivo que, em países como a Itália, vê no esqui uma tradição ligada a territórios e memórias locais.
Mas foi no skeleton que a manhã ganhou tom político. O Comitato Olimpico Ucraino confirmou a squalifica (desclassificação) de Vladyslav Heraskevych após sua intenção de competir com um capacete em memória dos atletas ucranianos mortos pela invasão russa. Segundo comunicados, o Comitato Olimpico Internazionale havia oferecido uma alternativa: usar uma faixa preta no braço. Heraskevych anunciou que pretende recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte (CAS/TAS), declarando que se sente injustiçado e vazio diante da decisão.
Em suas primeiras declarações, o atleta questionou a fundamentação normativa usada pelo Comitê: afirmou não concordar com a justificativa divulgada pelo COI e sugeriu que houve confusão entre a Regra 50 e a Regra 40 da Carta Olímpica, apontando incoerências nas comunicações e na aplicação das regras. Heraskevych também destacou uma percepção de discriminação — por entender que outros atletas que expressaram posições ou tributos semelhantes não sofreram as mesmas sanções — e sustentou a intenção de levar o caso ao CAS para defesa de seus direitos.
Os resultados parciais do skeleton também foram registrados: Weston (GBR) 56.212; Jungk (GER) 56.273; Bagnis (ITA) 56.374; Grotheer (GER) 56.395; Chen Wenhao (CHN) 56.436; Keisinger (GER) 56.447; Wyatt (GBR) 56.528; Yin Zheng (CHN) 56.569; Jung Sunggi (KOR) 56.571; Gaspari (ITA) 56.730. Esses tempos ilustram tanto a competitividade da prova quanto a presença italiana entre os melhores da sessão.
Para quem busca entender o programa completo, RaiNews.it oferece um especial de interactive storytelling explicando o ABC das 16 disciplinas olímpicas em competição — um recurso útil para leitores que desejam contextualizar diferenças técnicas como as entre gigante e slalom, ou compreender o que é, de fato, o skeleton.
Como analista, cabe sublinhar que este primeiro dia de Milano Cortina 2026 resume bem as tensões do esporte contemporâneo: coexistência entre espetáculo e regulamento, competição e memória, técnica e política. A forma como o caso de Heraskevych será resolvido — e, eventualmente, levado ao CAS — terá implicações para a governança olímpica e para a narrativa pública sobre como os Jogos lidam com expressões pessoais em tempos de conflito.
Nos próximos dias, o foco se manterá dividido: o curling procura consolidar favoritismos; o Super-G das azzurre testará tradições locais; e o desfecho jurídico do episódio no skeleton poderá influenciar a perícia normativa do Movimento Olímpico. Em todas essas frentes, o esporte se confirma, mais uma vez, como espelho de escolhas coletivas e de figurações identitárias.





















