Por Marco Severini — Em um encontro que desenha um novo alinhamento no tabuleiro europeu, os líderes da União Europeia reuniram-se hoje no castelo de Alden-Biesen para debater competitividade e autonomia estratégica. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, descreveu a iniciativa como um esforço pragmático: “C’è sicuramente un motore tedesco-italiano sui temi, rafforziamo la cooperazione bilaterale con Germania, ma non è qualcosa che si fa contro qualcuno altro”. A afirmação revela um movimento coordenado entre Roma e Berlim, que busca moldar a agenda industrial e regulatória europeia sem, porém, caracterizar-se como uma operação contra outros centros de poder dentro da União.
No ponto de imprensa prévio ao encontro, Meloni voltou a frisar que a UE deve escolher seu modelo: se aposta na abertura por meio de acordos de livre comércio, não pode simultaneamente adotar uma hiperregulação que inviabilize essa opção. “Serve semplificare”, disse ela, sublinhando a necessidade de simplificação normativa para preservar a capacidade competitiva do bloco.
Entre os temas prioritários apontados pela premier está o custo da energia. Meloni anunciou que a próxima semana trará ao conselho de ministros medidas concretas sobre preços energéticos, em uma tentativa de responder rapidamente às pressões que corroem a margem de manobra das indústrias europeias. “Su competitività non c’è tempo da perdere, servono risposte”, advertiu — um lembrete de que, no tabuleiro econômico, a passividade pode custar participação de mercado.
Ao encontro principal seguiram-se pré-summits com participação ampla: além dos anfitriões Itália, Alemanha e Bélgica, marcaram presença países como Eslováquia, Hungria, Polônia, Dinamarca, Bulgária, Luxemburgo, Finlândia, Croácia, Chipre, França, Áustria, República Checa, Holanda, Romênia, Grécia e Suécia. Estava também presente a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. O formato, informal e sem caráter vinculante, visa sobretudo orientar politicamente a Comissão na elaboração de propostas que serão discutidas no Conselho formal do final de março.
Politicamente, confirmou-se a aproximação entre Alemanha e Itália em torno de uma agenda mais liberalizadora e centrada na deregulation. Em documento assinado por Friedrich Merz e pela própria Meloni, os dois governos propõem inclusive um mecanismo de “freno de emergência“: um instrumento que permitiria a Estados-membros suspender normas de Bruxelas consideradas prejudiciais aos seus interesses nacionais — um recurso que altera, em germe, os alicerces da governança europeia.
As tensões, contudo, não desapareceram. O confronto franco-alemão voltou a emergir com nitidez: o presidente Emmanuel Macron criticou o veto de Berlim ao acordo UE–Mercosul e propôs, em entrevista recente, a emissão de um débito comum europeu para financiar projetos industriais e de defesa — ideia que encontrou resistência imediata em Berlim.
O resultado esperado de Alden-Biesen não são compromissos juridicamente vinculantes, mas uma orientação política que permita à Comissão preparar medidas concretas. A unidade em torno de uma maior autonomia estratégica parece ser o objetivo, embora as divergências sobre o método — entre integração fiscal, instrumentos industriais comuns e flexibilidade regulatória — indiquem que a tectônica de poder dentro da UE ainda está em recomposição.
Como analista, vejo este encontro como um movimento decisivo no tabuleiro: reagrupamentos de influência que procuram redesenhar fronteiras invisíveis entre soberanias e competências comunitárias. A realpolitik da Europa contemporânea segue tecendo alianças pragmáticas; saberá ela transformar essas ambições em políticas sustentáveis sem romper os frágeis equilíbrios da coalizão europeia é a questão-chave para as próximas semanas.
Marco Severini — Espresso Italia




















