Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
Em uma noite que entrará com justiça na memória do esporte italiano, a Itália conquistou dois ouros em sequência na pista Eugenio Monti, em Cortina, e provocou uma festa coletiva cuja intensidade teve contornos quase simbólicos. Não foi apenas a alegria de ver bandeiras e vozes se unir, mas o reencontro de uma tradição esportiva com sua própria história: o hino, a aclamação, a região e o público tornaram a vitória algo maior que o resultado.
O primeiro momento veio com a dupla feminina do slittino: Andrea Voetter e Marion Oberhofer rubricaram a prova com duas descidas praticamente perfeitas. A estreia olímpica da prova feminina teve nas italianas uma leitura técnica precisa e nervos de aço — posicionamento, linha e aceleração sem falhas — que as colocou desde cedo na liderança. A reação do público, que carregou a pista e a fan zone, traduziu a emoção: o boato que subiu para a Conca ampezzana e as lágrimas de quem testemunhou o momento transformaram a manhã de competição em memória coletiva.
Menos de uma hora depois, o roteiro se repetiu em outro tom, com a dupla masculina formada por Emanuel Rieder e Simon Kainzwaldner. Os dois protagonizaram uma recuperação impressionante — uma remontada que, além de técnica, teve o teor dramático das grandes jornadas esportivas. Ao final, a combinação de sangue-frio e leitura da pista garantiu o segundo ouro italiano da noite, um desfecho que fez o público abraçar-se em êxtase e reafirmou a dimensão coletiva do triunfo.
Há um peso simbólico nessa sucessão de vitórias: desde 1956 — quando a Itália celebrou o ouro no bob dois com Giacomo Luigi Conti e Lamberto Dalla Costa —, a Monti não assistia a tantos motivos de júbilo em tão curto espaço. A reemergência do inno di Mameli sobre o serpentone de curvas confirma que o esporte, em sua face mais elevada, também é memória e identidade.
O cenário completou a narrativa. A pista Eugenio Monti, palco das Olimpíadas de Cortina, estava entornada de expectativas: turistas, fãs locais e um aparato institucional que incluía, segundo rumores, a presença do Presidente da República. Na fan zone, o maxi‑tela amplificou imagens e emoções; nos prados ao redor, o público parecia consciente de assistir a algo que seria contado a parentes e amigos por muitos anos.
Como analista e repórter, vejo nestes dois ouros algo mais do que sucessos isolados: é o sinal de uma formação técnica consistente, de investimentos dirigidos ao treinamento e de uma cultura esportiva regional capaz de transformar infraestruturas em lugares de pertencimento. A Monti voltou a ser palco de festa não apenas por mérito dos resultados, mas porque mostrou a capacidade do esporte italiano de produzir narrativa coletiva — e, em tempos complexos, essa capacidade é muitas vezes tão relevante quanto a medalha.
Fim de festa? Não necessariamente. Se a noite em Cortina serviu para lembrar o valor da conquista, também deixou pistas sobre o que vem a seguir: renovação de gerações, reconhecimento institucional e a responsabilidade de transformar o êxito em projeto duradouro. Por ora, vale a celebração que ressoou entre vales e montes: duas vitórias que, juntas, compõem um capítulo luminoso para o esporte italiano.





















