Por Alessandro Vittorio Romano — A respiração da nação, por vezes, se altera quando as contas do sistema de saúde mostram sinais de febre. É esse o quadro que o ministro da Saúde, Orazio Schillaci, encontrou ao receber os últimos números sobre a despesa farmacêutica. Em carta dirigida à direção da AIFA, ele pede esclarecimentos urgentes e solicita a adoção de medidas corretivas, ao mesmo tempo em que critica as tensões internas que, segundo ele, comprometeriam a credibilidade da governança farmacêutica.
Os dados alarmantes vêm do monitoramento relativo a janeiro-setembro de 2025, apresentado ao Conselho de Administração da AIFA. No total, a despesa farmacêutica — somando compras diretas e gasto com a rede convenzionata — atingiu 18,42 bilhões de euros, com um desvio de 2,85 bilhões em relação ao teto programado. Em detalhe: as compras diretas alcançaram 11,64% do Fundo Sanitário Nacional, acima do limite de 8,3%, representando um excesso de 3.384 milhões de euros. A despesa convenzionata, por sua vez, ficou em 6,33% do Fundo, abaixo do teto de 6,8%, mas com forte variabilidade regional.
Em resposta rápida, o presidente da AIFA, Robert Nisticò, afirmou que “o ministro Schillaci, no âmbito de um relacionamento de leal colaboração e confiança, receberá os aprofundamentos solicitados dentro dos prazos indicados”. Ao mesmo tempo, a agência vinha já delineando medidas para conter o ritmo dos gastos: uma cláusula de salvaguarda para gerir o acesso à reembolsabilidade de medicamentos de alto custo e inovadores e o trabalho de implementação da revisão do prontuário farmacêutico nacional prevista na lei orçamentária de 2026.
Para o ministro, contudo, essas iniciativas não são suficientes diante da velocidade do crescimento. Schillaci lembra que o envelhecimento demográfico e a chegada de medicamentos inovadores e de alto custo são variáveis conhecidas e, em grande parte, previsíveis. Ainda assim, dados como os do “Relatório OSMED 2024” e as comunicações do Conselho Diretor da AIFA (janeiro de 2026) apontam para críticas significativas que geraram apreensão entre as administrações regionais.
Um ponto sensível destacado na carta ministerial é a diferença de interpretação entre a AIFA e as Regiões sobre a sustentabilidade financeira da despesa farmacêutica — uma divergência que o ministro considera de particular gravidade. Soma-se a isso o eco das polémicas internas divulgadas pela imprensa, que, na visão de Schillaci, abalaram ainda mais a confiança na capacidade de governança do sistema farmacêutico nacional.
Como quem observa um bosque afetado por ventos fortes, não se trata apenas de contar árvores; é preciso cuidar das raízes. A emergência, para além dos números, pede transparência, diálogo claro entre Estado, agência e territórios, e mecanismos que permitam conciliar inovação terapêutica com sustentabilidade. A cláusula de salvaguarda e a revisão do prontuário podem ser ferramentas úteis, desde que aplicadas com critérios precisos e com participação das Regiões.
O desfecho dessa disputa entre instituições definirá se a colheita das próximas temporadas será equilibrada — capaz de garantir acesso a tratamentos de ponta sem sufocar o orçamento público — ou se a crise se aprofundará, prejudicando a confiança dos cidadãos no sistema. Até lá, a carta de Schillaci é um chamado: exige-se luz sobre os números e passos concretos para aparar os excessos e proteger a saúde coletiva.






















