Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em uma prova que mistura precisão técnica e memória esportiva, a dupla italiana formada por Emanuel Rieder e Simon Kainzwaldner escreveu uma nova página do slittino italiano ao conquistar a medalha de ouro no concurso de duplas nos Jogos de Milão-Cortina 2026, disputado na pista Eugenio Monti, em Cortina d’Ampezzo.
A vitória surgiu após duas descidas impecáveis. O cronômetro marcou 1’45″086 para a soma das duas passagens, resultado que deixou a Áustria de Thomas Steu e Wolfgang Kindl a 68 milésimos, e a Alemanha — os tricampeões olímpicos conhecidos como “os dois Tobias”, Tobias Wendl e Tobias Arlt — a 90 milésimos. Estes números traduzem a folga mínima que distingue glórias e decepções neste esporte dominado por detalhes de técnica, material e leitura da pista.
O significado do triunfo ultrapassa a conquista imediata: trata‑se do terceiro ouro italiano no duplo de luge em Jogos Olímpicos. Anteriormente, a história registrou o primeiro pódio máximo com Paul Hildgartner e Walter Plaikner em Sapporo 1972 — naquele caso dividido com a dupla alemã Horst Hoernlein e Reinhard Bredow — e o segundo com Kurt Brugger e Wilfried Huber em Lillehammer 1994. Rieder e Kainzwaldner, portanto, conectam gerações: herdam uma tradição esparsa, mas sempre presente, que se manifesta em momentos decisivos.
Mais do que um pódio, a performance italiana em Cortina é leitura de estrutura. Nunca antes havia uma vitória do par italiano no degrau mais alto em etapa de Copa do Mundo — o melhor resultado prévio era um segundo lugar em um sprint de duplas — e o ouro olímpico evidencia uma evolução no preparo técnico, na escolha de material e na capacidade de interpretar pistas históricas como a do Eugenio Monti. Para um país em que o inverno tem micro-regiões de referência e identidades locais fortes, o resultado ressoa como reafirmação de um patrimônio esportivo.
Do ponto de vista esportivo, a margem entre as duplas e a consistência nas duas descidas foram decisivas. A equipe italiana soube combinar velocidade de partida, estabilidade nos trechos vazados e precisão na saída das curvas, fatores que, somados, renderam poucos centésimos que, na soma, viraram ouro.
Há também um recado para o circuito internacional: enquanto as duplas alemãs e austríacas mantêm um histórico de domínio e recursos consolidados, a Itália demonstra que políticas de formação e investimentos técnicos podem produzir resultados olímpicos. Rieder e Kainzwaldner não apenas conquistaram uma medalha; ofereceram uma narrativa de continuidade e renascimento para o slittino italiano.
Em Cortina, onde o passado e o presente esportivo se encontram, a dupla italiana acrescentou um capítulo que será lembrado tanto pelos dados objetivos do cronômetro quanto pelo valor simbólico de reinserir a Itália no mapa das grandes nações do luge.





















