Por Aurora Bellini — A mais recente fotografia da vida selvagem italiana revela um cenário que exige ação urgente: o país perdeu cerca de 33% das aves que vivem e se reproduzem em áreas agrícolas — ou seja, uma em cada três. Nas planícies aluviais, o recuo chega a quase 50%. São números do monitoramento conduzido pela Lipu no âmbito do projeto internacional Farmland Bird Index, que acende um alerta sobre o declínio das populações que nidificam nas zonas rurais.
O estudo, financiado pelo Ministério da Agricultura através da Rede nacional da PAC (Política Agrícola Comum da UE), mostra que as transformações do uso do solo, a urbanização, o abandono de práticas agrícolas tradicionais e a intensificação do cultivo alteraram profundamente o tecido dos agroecossistemas. O resultado é uma diminuição drástica de espécies que até recentemente eram comuns nas paisagens cultivadas.
Algumas espécies emblemáticas ilustram esse retrocesso: o torcicollo registrou perda de cerca de 76% em 26 anos; o calandro sofreu uma queda de 73%; e o saltimpalo cerca de 71%. Esse painel não se limita a estes casos: entre as 28 espécies típicas dos agroecossistemas consideradas no indicador, também apresentam declínios acentuados a allodola (codorna?), a averla piccola, a passera mattugia e a passera d’Italia.
Por que isso acontece? A resposta é multifacetada, mas alguns fatores centrais se destacam. O uso crescente de pesticidas e fertilizantes químicos reduz a disponibilidade de insetos e sementes — recursos alimentares essenciais para muitos pássaros — e contamina cadeias tróficas. A mecanização e o aumento das monoculturas comprimem a heterogeneidade do habitat; a drenagem de zonas húmidas e o desaparecimento de sebes, mosaicos de pousio e margens floridas eliminam locais de nidificação e refúgio. Além disso, mudanças no calendário das estações por causa das alterações climáticas afetam migrações e períodos de reprodução.
O mapa coletivo mostra que a situação é mais grave nas planícies, onde a pressão agrícola intensiva é mais forte e onde medidas de recuperação ambiental são particularmente necessárias. As propostas avançadas pela rede de conservação incluem a redução imediata do uso de químicos, medidas agroecológicas para favorecer polinizadores e insetos auxiliares, restauração de habitats (sebes, pastagens permanentes, zonas húmidas) e esquemas de pagamento por serviços ambientais dentro da PAC para incentivar práticas sustentáveis.
Há também desafios comportamentais e legais: o combate ao bracconaggio (caça ilegal) e a proteção efetiva dos períodos de reprodução exigem fiscalização reforçada e cooperação entre agricultores, ONGs e autoridades. Parcerias locais, como pactos entre produtores e unidades de conservação, podem iluminar novos caminhos de convivência entre produção e biodiversidade.
Este é um chamado para semear mudanças estruturais. Redesenhar paisagens agrícolas é uma tarefa de longo prazo, mas com ganhos concretos: solos mais saudáveis, polinização assegurada, redução de custos a médio prazo e um tecido rural que volta a ser resiliente. A iniciativa da Lipu e do Farmland Bird Index oferece dados que devem orientar políticas públicas e escolhas privadas — para que possamos, juntas e juntos, cultivar valores e garantir um horizonte límpido para as próximas gerações.
Em resumo: a perda de um terço das aves agrícolas é um sintoma de um modelo produtivo que precisa se transformar. Menos química, mais espaço para a natureza e incentivos que alinhem produção e conservação são passos práticos — luzes que, se acesas, podem restaurar a vida das nossas paisagens.
O que fazer agora: implementar medidas agroambientais imediatas na PAC, reduzir o uso de pesticidas, restaurar habitat nas planícies, criar corredores ecológicos e reforçar a fiscalização contra a caça ilegal. São ações que tecem laços sociais e ecológicos e representam o renascimento cultural de um campo que pode voltar a ser produtivo e biodiverso.






















