Por Otávio Marchesini — A trajetória da equipe francesa de biatlo nos últimos meses lembra mais um estudo sobre coesão e permissividade institucional do que uma sequência previsível de resultados esportivos. Em Pequim — e agora refletido nas provas mais recentes — os transalpinos impuseram autoridade: vitória convincente na staffetta mista, segundo lugar nos 20 km masculinos e um triunfo expressivo na primeira prova individual feminina com Julie Simon em primeiro e Lou Jeanmonnot em segundo.
Os resultados, contudo, chegam sobre um pano de fundo turbulento. A vitória da França parece ter um sabor paradoxal: de um lado, excelência técnica e tática; do outro, episódios que questionam a integridade do grupo. Julie Simon, 29 anos e com 13 medalhas de ouro mundiais no currículo, voltou aos pódios depois de um caso que raramente se vê em equipes de alto rendimento: ela havia subtraído o cartão de crédito da colega e amiga de equipe Justine Braisaz-Bouchet e feito compras online no valor de alguns milhares de euros. Descoberta, inicialmente negou, acabou por admitir e foi condenada a três meses de prisão com pena suspensa, além de uma suspensão de apenas um mês das atividades competitivas. A reintegração de Simon ao grupo — e a aceitação por parte das colegas, a ponto de integrá-la à staffetta campeã — foi interpretada por muitos como um feito das estruturas técnicas nacionais.
Mas as tensões não se limitaram ao furto. Durante períodos de treinos e concentrações a descoberta de outra irregularidade abala o princípio de lealdade interna: a jovem promessa Jeanne Richard foi flagrada ao manipular a carabina da rival Océane Michelon, numa tentativa evidente de eliminar uma concorrente por uma vaga olímpica. O episódio foi inicialmente abafado pela federação; Braisaz-Bouchet, capitã e peça central do grupo, revelou o ocorrido. Após um período de “purgatório”, Richard não só recuperou-se ao ponto de ser reintegrada como foi escalada na mesma staffetta em que competiu ao lado de Michelon e da própria Braisaz-Bouchet. Resultado prático: vitória na Copa do Mundo.
Para observadores externos — e para quem vê o esporte como reflexo de estruturas sociais — duas leituras se impõem. A primeira destaca a eficácia do aparato técnico e a capacidade de gestão de resultados imediatos: a França consegue transformar atritos em combustível competitivo. A segunda, mais desconfortável, pergunta qual o custo dessa normalização de episódios que envolveram crime e sabotagem. Em vez de expulsões ou punições de longo prazo, a resposta institucional tem sido a reintegração com curtos períodos de sanção — uma decisão que prioriza o rendimento sobre a preservação de valores e da confiança dentro do grupo.
No plano individual, a prova feminina apresenta contrastes: além de Simon e Jeanmonnot no alto do pódio, a búlgara Hristova figurou entre as líderes. Já as italianas vivenciaram sentimentos opostos: Dorotea Wierer terminou em quinto após um erro a mais no estande; Lisa Vittozzi teve performance desastrosa e caiu ao 37º lugar, muito aquém das expectativas iniciais.
O episódio francês inaugura um debate maior sobre o que as federações estão dispostas a tolerar em nome do sucesso. O esporte de alto rendimento sempre exigiu, além de talento, uma gestão delicada das relações humanas; quando essa gestão opta por reconciliações rápidas diante de infrações graves, a comunidade esportiva precisa perguntar até que ponto a vitória justifica o preço moral.
11 de fevereiro de 2026





















