Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
Quando, às 11h48, o locutor anunciou que Giovanni Franzoni estava pronto para descer a pista da Stelvio no seu primeiro Super-G olímpico, o ski stadium de Bormio calou-se. Não foi apenas o silêncio da expectativa esportiva: foi o instante em que se consumou a identificação coletiva com um jovem atleta que, em poucos gestos e com um sorriso fácil, começou a ocupar um lugar simbólico na memória de uma comunidade.
Havia suíços na arquibancada — tantos que parecia que uma parte dos Alpes vizinhos se somara ao coro — mas toda a Itália, naquele dia, torcia por ele. O apelido circulou entre as pessoas: GGG, o Grande Giovanni — rótulo que, mais do que inflar egos, traduz uma transferência de expectativas e afeto. Para muitos, a admiração veio tanto pela fatura física do atleta quanto por uma imagem geracional: os cabelos encaracolados arrumados com descuido, os modos contidos de quem veio de uma família cuidada e a impressão de quem representa um possível caminho de sucesso.
Não se trata apenas de idolatria instantânea. O fenômeno tem raízes sociais: nas arquibancadas, as jaquetas dos clubes brescianos — Brixia, Rongai, Go, Noi, Collio, Ponte di Legno — desfilaram como estandartes de identificação. Eram as mesmas jaquetas que, dias antes, enchiam a forneria Salvetti em Malonno, porta de entrada para a Alta Val Camonica. Havia bandeirinhas, cartazes desenhados à caneta, e numerosos pedidos de autógrafos no capacete do rapaz. Entre o público, a sensação era coletiva: finalmente os pequenos esquiadores locais tinham um herói masculino a quem mirar, contraponto às torcidas que idolatravam Sofia Goggia nas proximidades de Bergamo.
O impacto mais palpável foi sobre os jovens atletas. «Eu sou mais forte no Slalom, esta é a primeira temporada com o palo alto —» contou Riccardo, dez anos, estreante no Campeonato Cuccioli, «— mas quero ser descesista como o Franzoni.» Frases como essa dizem menos sobre técnica e mais sobre transmissão de sentido: um menino projetando vida esportiva a partir de um exemplo próximo.
Esqui é dureza: manhãs geladas, viagens longas, hotéis modestos, sanduíches consumidos entre treinos. Mas o que torna o esporte ainda mais cruel é a sua capacidade de decidir destinos em minutos — às vezes em menos de dois minutos. É nessa tensão que figuras como Giovanni Franzoni ganham relevância simbólica, porque condensam esperança e possibilidade em performances que, para uma geração, valem mais do que resultados absolutos.
O fenômeno de Bormio é também uma imagem do regionalismo esportivo italiano: clubes pequenos que, por anos, alimentaram sonhos discretos e agora veem suas cores assumirem visibilidade nacional. Para treinadores e pais cansados das rotinas, a ascensão de um atleta local funciona como validação do trabalho coletivo — e como um catalisador para novas matrículas, novos patrocínios e, talvez, uma revisão das prioridades na formação juvenil.
Não se deve romantizar demais: sustentar uma carreira no alto nível exige políticas esportivas coerentes, investimento nas infraestruturas e uma margem de proteção para os jovens frente às pressões midiáticas. Ainda assim, a tarde de Bormio nos lembra que o esporte moderno continua a produzir heróis que são, sobretudo, nós em movimento: agregadores de memórias, estímulos para projetos de vida e sinais das tensões culturais que atravessam cidades e regiões.
Ao final, quando os cânticos cessaram e os capacetes foram autografados, ficou a imagem de uma arquibancada inteira que torcia por um nome. Não era apenas por uma vitória; era por aquilo que o GGG passou a representar: a possibilidade de ver um caminho reconhecível para meninos e meninas das pequenas vilas e vales que, por meio do esqui, buscam um lugar no mapa.





















