Em um painel realizado na Sala Matteotti da Camera dei Deputati, especialistas, empresas e instituições debateram um tema que funciona hoje como alicerce das políticas tecnológicas europeias: a soberania tecnológica e a proteção dos dados. O seminário “Un sistema di alleanze per l’autonomia strategica”, promovido pelo On. Guerino Testa e organizado por Alé Comunicazione, ofereceu um retrato pragmático das exigências atuais para consolidar a postura digital da Itália num cenário geopolítico tenso.
O diagnóstico central foi claro: a autonomia estratégica não se constrói apenas com soluções pontuais, mas com a coordenação de políticas, competências e infraestrutura. Nesta lógica, emergiram três vetores interdependentes — proteção do dado, certificação de competências e governança do cloud e da inteligência artificial — que precisam de arranjos institucionais mais robustos para operar como um sistema integrado.
Sobre a proteção do dado, a adoção de padrões abertos foi apontada como mecanismo técnico e geopolítico para reduzir a dependência de grandes players estrangeiros. Giulio Covassi (Kiratech) ressaltou que a adoção de soluções em código aberto aumenta a transparência e a segurança da pilha tecnológica, facilitando auditorias e mitigação de riscos. Em paralelo, enfatizou-se a necessidade de reter talentos em TI dentro do território nacional, para que o conhecimento—o fio condutor do sistema—não vaze para ecossistemas externos.
O segundo eixo focalizou as competências humanas como componente mensurável da autonomia. O Prof. Antonio Capobianco (Fata Informatica) destacou que “a autonomia estratégica não se constrói só com tecnologias, mas com competências certificadas e reconhecíveis”. Referiu-se a padrões como UNI 11621-4:2024 e UNI 11506:2021, que permitem tornar as profissões de cibersegurança comparáveis e confiáveis no mercado. Essa mensurabilidade cria uma cadeia de confiança técnica — uma espécie de protocolo comum no sistema nervoso das cidades digitais.
Já no terreno do cloud e da inteligência artificial, o desafio é equilibrar eficiência global e controle estratégico local. Maurizio Nasso (Olidata) alertou que as plataformas e as camadas de IA oferecem ganhos operacionais relevantes, porém sua adoção exige políticas que preservem o governo sobre dados sensíveis e arquivos críticos. Em termos de infraestrutura, trata-se de garantir que o fluxo de dados siga sob supervisão nacional, sem perder a escalabilidade que os serviços globais proporcionam.
Para operacionalizar essas prioridades, Robert Hassan (Alé Comunicazione) propôs a criação de cabines di regia verticais, compostas por atores públicos e privados, com mandatos por áreas estratégicas. Essas cabines atuariam como coordenadores táticos — mini-centros de comando — para acelerar processos e zelar pela segurança e aderência a normas. Em linguagem de engenharia, funcionariam como nós de uma rede que orquestram latência, tráfego e resiliência.
O encontro também tocou em conformidade europeia, citando a necessidade de alinhamento com diretivas como a NIS2, e na importância de instrumentos práticos que transformem diretrizes em procedimentos auditáveis. A conclusão foi pragmática: a Itália precisa combinar alianças, padrões abertos, certificação profissional e estruturas de governança para transformar a autonomia em um resultado operacional concreto, não apenas em um objetivo retórico.
Na perspectiva que aqui adotamos, a estratégia ideal equilibra camadas — políticas, técnicas e humanas — de modo a construir uma infraestrutura digital sólida: menos espetáculo, mais engenharia. A verdadeira soberania tecnológica é construída no cotidiano da gestão dos dados, na formação e retenção de competências e na capacidade de governar as plataformas que sustentam serviços essenciais. A proposta das cabines di regia é um passo nessa direção: transformar diálogos dispersos em circuitos decisórios capazes de manter a Itália competitiva e segura no mapa digital europeu.






















