Franjo Von Allmen consolidou em Bormio uma vitória que ultrapassa a dimensão estritamente atlética: com o triunfo no Super-G — que se soma às conquistas na descida e na combinada — o esquiador suíço garantiu três medalhas de ouro em Milano Cortina e tornou-se figura central destes Jogos.
Na coletiva após a prova, envolto na bandeira da Suíça e com os adeptos a cantar e a dançar do lado de fora, Von Allmen repetiu a mesma formulação que transpira pragmatismo e cautela: “Rimarrò me stesso” — “ficarei sendo eu mesmo”. A declaração é sintomática: diante de uma conquista de grande brilho, o atleta opta por uma norma de comportamento que combina ambição e moderação. É a atitude de quem tem plena consciência do peso simbólico de uma performance olímpica, mas prefere ancorar-se em rotinas e valores pessoais.
Os próprios elementos que favoreceram a vitória foram reconhecidos sem rodeios pelo campeão. “Tive um pouco de sorte com o número de partida e a neve que ficou um pouco mais lenta”, admitiu. Essa franqueza é importante: revela que, mesmo em um triunfo catalogado como dominante — às vezes descrito pela imprensa como quase “canibal” pela sua voracidade competitiva —, a combinação de técnica, condição e uma parcela de aleatoriedade continua a definir os resultados no esqui alpino.
Do ponto de vista histórico e social, o desempenho de Von Allmen merece uma leitura mais ampla. Três ouros em uma mesma edição dos Jogos reforçam não só a trajetória individual do atleta, mas também o investimento e a tradição da Suíça nas provas de velocidade. Estádios e pistas tornam-se palco de memórias coletivas: para a cidade anfitriã e para a comunidade do esqui, esse tipo de vitória reconfigura narrativas, alimenta o turismo de elite esportiva e fortalece a imagem de um país que há décadas se projeta como laboratório de excelência nessas modalidades.
Em termos culturais, a cena pós-prova — a bandeira no ombro, os cânticos dos fãs — reverbera algo que o esporte olímpico faz com força singular: transformar o êxito atlético em ritual comunitário. Em Bormio, um município com história ligada ao esqui, o triunfo de Von Allmen reforça a relação entre território e espetáculo. Para os organizadores de Milano Cortina, resultados desse porte ajudam a legitimar o evento e fixam a memória dos Jogos num repertório de imagens potentes.
Como repórter e analista, permanece a observação de que um atleta que afirma “ficar sendo ele mesmo” celebra um triunfo sem permitir que a glória reescreva suas referências. É uma forma de resistência frente a uma era que muitas vezes transforma heróis esportivos em mercadorias imediatas. Se a humildade será mantida, o que já é evidente é o legado competitivo: Von Allmen não apenas venceu; reescreveu, por alguns dias, o mapa simbólico das pistas olímpicas.
Nos próximos capítulos dessa narrativa haverá avaliações sobre impacto na seleção suíça, possíveis implicações para patrocinadores e a memória que esses Jogos deixarão no circuito do esqui. Hoje, porém, permanece a imagem do atleta com a bandeira nas costas e a promessa simples e firme: “Rimarrò me stesso”.





















