Por Marco Severini — Em um movimento que revela a tectônica de poder entre aliados transatlânticos, a política anti-imigração do presidente Donald Trump entrou formally no debate do Parlamento Europeu em Estrasburgo. A discussão, convocada após a morte em Minneapolis de dois cidadãos — Renée Good e Alex Pretti — por agentes federais do ICE, expôs fissuras na arena política europeia e suscitou preocupações sobre o estado de direito e os fundamentos dos direitos civis.
Uma sondagem do SurveyMonkey, publicada pela NBC News, documenta o recuo de popularidade do presidente norte-americano: 49% dos americanos entrevistados apontaram desaprovação à sua conduta em matéria de fluxos migratórios. Esses números serviram de pano de fundo para um debate inflamado no plenário, marcado não apenas pelo conteúdo, mas pela lista de ausências — entre elas o grupo do Partido Popular Europeu (PPE), cuja falta foi duramente criticada.
“É profundamente lamentável que o PPE não esteja presente neste debate, ao fazê-lo tende a alinhar-se com a direita radical”, disse Ana Catarina Mendes, vice-presidente do grupo dos Socialistas e Democratas (S&D) e promotora da iniciativa. Para Mendes, Minneapolis é mais do que uma tragédia local: é “o símbolo de uma ferida aberta de um sistema que não assegura igualdade perante a lei”. Em tom incisivo, ela advertiu que a democracia pode se corroer por dentro e afirmou que, nesta Casa, existem atores que se comportam como “inimigos da democracia”.
Representando a Comissão Europeia, o comissário para a Pesca e os Oceanos, Costas Kadis, assumiu um papel discreto, mas claro: os acontecimentos em Minneapolis “susitaram grande preocupação na Europa”. Kadis condenou a perda de vidas e afirmou ter confiança no funcionamento do sistema judicial americano, ao mesmo tempo em que lembrou que o Estado de direito não é negociável. “A União Europeia continuará o diálogo com os Estados Unidos sobre as questões que alimentam apreensão; assim procedem os parceiros responsáveis”, acrescentou, numa declaração que buscou equilibrar crítica e necessidade de manutenção das vias diplomáticas.
O debate em plenário também se converteu em um campo de confrontos de política interna: a presença do ICE na Itália, durante a preparação para os Jogos Olímpicos de Inverno em Milão, foi duramente contestada. Carlo Fidanza, chefe da delegação de Fratelli d’Italia, acusou a esquerda de exagerar a chegada das autoridades americanas, transformando o episódio em “um incêndio nas praças do ódio”.
Do outro lado, Benedetta Scuderi, eurodeputada dos Verdes, foi contundente: “Consideramos os Estados Unidos nossos aliados, mas o ICE opera como uma esquadrilha autoritária, sem regras claras, ao serviço das políticas de Trump”. A troca de acusações ilustrou o modo como decisões externas — operações de control migratório, por exemplo — podem redesenhar linhas de conflito internas, realçando como os acontecimentos transnacionais criam fraturas na política doméstica europeia.
Como analista que observa o tabuleiro de xadrez das relações internacionais, vejo neste episódio um movimento decisivo de dupla face: por um lado, uma potência aliada em crise de legitimidade por práticas internas; por outro, uma União Europeia que tenta conciliar a defesa dos direitos humanos com imperativos diplomáticos e de segurança. A ausência do PPE no debate não é apenas uma falha protocolares — é um lance estratégico que redesenha, mesmo que temporariamente, os alicerces das alianças políticas em Bruxelas.
O desenlace desta crise dependerá não apenas de inquéritos e processos judiciais nos Estados Unidos, mas também da capacidade europeia de transformar preocupação em políticas coerentes que protejam princípios sem fechar canais de diálogo. Em termos geopolíticos, trata-se de administrar o choque entre a necessidade de preservar laços atávicos e a obrigação de renovar as garantias democráticas que sustentam esses mesmos vínculos.






















