Gabriele Muccino chega à temporada de Dia dos Namorados retomando o tema que percorre sua filmografia: o amor e as suas complicações. Em entrevista à Adnkronos, o cineasta italiano refletiu sobre quais casais de seus filmes ele imaginaria celebrando a data, e a resposta traça um pequeno mapa afetivo do seu cinema.
Muccino não hesita: entre aqueles que ele veria comemorando estão Kim Rossi Stuart e Micaela Ramazzotti de Gli anni più belli, Will Smith e Rosario Dawson de Sette anime — salvo o desfecho trágico do filme — além de Carlo e Giulia, figuras recorrentes em sua obra, vistas em L’ultimo bacio e Baciami ancora. Para o diretor, seria curioso observar esses pares diante de Le cose non dette, seu título mais recente em cartaz, para ver se eles conseguiriam, talvez, evoluir de modo mais saudável.
O novo trabalho de Muccino não é apenas mais uma história de amor: já estreou no topo das bilheterias, com um faturamento total de 4.624.794 euros desde o lançamento, e se apresenta como um verdadeiro manual de sobrevivência emocional. Segundo o diretor, qualquer pessoa apaixonada pode extrair deste filme um código de conduta. A advertência é clara: os chamados erros fatídicos e insidiosos que atravessam os personagens — interpretados por Stefano Accorsi, Carolina Crescentini, Claudio Santamaria e Miriam Leone — são movimentos silenciosos que corroem a relação.
Há uma sentença que soa como assinatura do seu cinema: basta esconder algo para que essa omissão se torne irreversível. Muccino evoca a lógica da falta não dita, aquela fissura que se amplia e que converte a omissão em detonador emocional. Essa ideia funciona como um espelho do nosso tempo, onde o silêncio entre parceiros atua como roteiro oculto de fracassos e reconfigurações.
Perguntado sobre o desejo de dirigir uma comédia romântica menos trágica, Muccino admite que sim: gostaria de realizar uma comédia sofisticada. Para ele, o gênero romântico costuma ser repetitivo, um esquema já visto, mas há espaço para um reescrita elegante — uma comédia capaz de oferecer possibilidades reais de aprendizado e evolução. A proposta é ambiciosa: transformar o já visto em oportunidade de reparação, sem cair na superficialidade.
O diretor insiste numa leitura psicanalítica do comportamento amoroso. Segundo Muccino, nossa natureza está vinculada ao subconsciente e aos atos compulsivos que praticamos sem plena consciência, difíceis de alterar. No entanto, se conseguíssemos nos olhar com honestidade e entender por que repetimos os mesmos padrões, haveria espaço para uma verdadeira evolução.
Como analista cultural, percebo em suas palavras uma convicção que vai além do melodrama: o cinema de Muccino funciona como um laboratório público de afetos, onde cada omissão é uma cena fora de quadro que pede reescrita. Em tempos de celebrações de consumo, propor um filme que ensine a escavar as próprias atitudes é um gesto quase político — um convite a reencontrar linguagem e compasso dentro dos relacionamentos. Talvez essa seja a maior promessa de Le cose non dette: não apenas mostrar o erro, mas apresentar um possível roteiro de reparação.






















