Sanremo 2026 ganhou nesta fase de ensaios um episódio que expõe o roteiro oculto do espetáculo como reflexo das pressões públicas. Em contato telefônico com o programa La Pennicanza, apresentado por Fiorello e Biggio, o diretor artístico e condutor Carlo Conti comentou sobre a recente retirada de Andrea Pucci e sobre a escolha que fez para a segunda serata do festival.
Conti disse que ‘não pensávamos em criar um affaire de Estado’ e que a sua intenção inicial era privilegiar ‘um artista que enche teatros’. Apesar do tom bem-humorado que o próprio apresentador costuma empregar, houve também um momento de lamento: ‘Ci si può scherzare però mi dispiace molto per Andrea sia umanamente che professionalmente. La sua è stata una scelta autonoma’. Essas palavras revelam a tensão entre o palco da festa e a máquina de atenção pública, onde cada recuo ou escolha vira espelho do nosso tempo.
Na entrevista, Carlo Conti recordou a contestação sofrida por Maurizio Crozza em ocasiões passadas para sublinhar a pressão do palco do Ariston. A referência histórica funciona como um lembrete de que Sanremo não é apenas um show: é um cenário de transformação cultural, onde o ato performativo se entrelaça com expectativas sociais e memórias coletivas.
Sobre a apresentação da segunda noite, Conti oficializou a presença de Pilar Fogliati como co-condutora. A escolha abre um reframe interessante na narrativa do festival, trazendo ao palco uma figura capaz de conversar com o público de maneira que transcende o mero entretenimento e sugere uma leitura mais contemporânea do evento.
No capítulo dos convidados, o diretor artístico foi cauteloso: não confirmou uma possível participação de Eros Ramazzotti. Em contrapartida, desmentiu de forma bem-humorada os rumores sobre a presença dos amigos Leonardo Pieraccioni e Giorgio Panariello: ‘Não vêm, não têm nem sequer reservado o hotel’, disse, numa nota que mistura ironia e pragmatismo.
Enquanto as luzes do Ariston se afinam para os ensaios finais, o episódio revela como as escolhas artísticas em Sanremo são tanto decisões curatoriais quanto pequenos eventos que reverberam além do palco. A retirada de Andrea Pucci, vista por Conti como uma decisão autônoma, e a confirmação de Pilar Fogliati como coapresentadora compõem um novo quadro narrativo do festival, influenciando expectativas sobre a temporada e sobre o papel do apresentador como mediador entre palco e público.
Como analista cultural, percebo nessa movimentação mais do que bastidores: vemos um microcosmo do debate público contemporâneo, onde a performance, a reputação e a memória coletiva se encontram. Sanremo 2026 segue assim, com seu brilho, suas tensões e um roteiro que continua a espelhar a sociedade que o assiste.






















