Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A organização médica das Olimpíadas Milano‑Cortina não é improviso: trata‑se de uma máquina planejada há mais de um ano, montada para responder a urgências esportivas e civis com rapidez e precisão. A chamada task force reúne cerca de 1.200 profissionais de saúde — entre médicos, enfermeiros, técnicos e voluntários — distribuídos entre as arenas, o vilarejo olímpico e os hospitais da região.
O teste mais visível do sistema ocorreu recentemente com a queda da esquiadora americana Lindsey Vonn, durante a prova de descida livre. A atleta foi estabilizada na pista, transportada por helicóptero ao policlínico olímpico Codivilla, em Cortina, e posteriormente transferida ao hospital Ca’ Foncello, em Treviso, onde foi operada por fratura de fêmur. A rapidez da resposta confirmou a eficácia dos protocolos regionais, coordenados pelo Regional Medical Care Manager Paolo Rosi e pela Usl Dolomiti, sob a direção do comissário extraordinário Giuseppe Dal Ben.
O modelo de atendimento segue um princípio de duplo trilho: há percursos clínicos específicos para os atletas, preparados para preservar desempenho, sigilo e continuidade de tratamento; e, paralelamente, existe uma rede capilar de socorro destinada ao público, que se integra com a organização sanitária habitual para residentes e turistas. No final de uma semana intensa, os serviços comuns chegaram a registrar sete intervenções por helicóptero e 84 missions Suem fora do contexto olímpico — sinal de que os fluxos assistenciais locais continuam a operar em paralelo.
Entre 26 de janeiro e 19 de março, as principais venues — a pista Olympia nas Tofane, o Sliding Centre (bob, trenó e skeleton) e o Estádio de Gelo — contam com cinco Medical station, pontos de atendimento móvel de primeiro socorro. Em cada sítio há equipes de resgate a pé (4 a 6 profissionais), equipes sobre esquis e ambulâncias. As equipes são formadas por 16 médicos e 9 enfermeiros oriundos de Pronto Socorro, Suem 118 e Terapia Intensiva das Usl venetas, com o apoio de voluntários da Cruz Vermelha, da Associação Nacional de Soccorso Pubblico, do Soccorso Alpino e das forças de segurança (Polizia, Carabinieri, Guardia di Finanza).
Todos os selecionados passaram por critérios que incluem conhecimento técnico e habilidade sobre esquis — requisito essencial para operar com segurança em pistas de alta dificuldade. Em áreas comuns e arquibancadas, outros grupos atuam para atender mal‑estares e pequenos acidentes entre o público. Em cada local de competição estão posicionadas quatro ambulâncias — duas dedicadas aos atletas e duas aos espectadores — além de um Medical control que monitora as câmeras e coordena disparos de socorro quando necessário.
Na conta operacional, a estrutura mobiliza cerca de 300 médicos, 450 enfermeiros, 100 operadores sociosanitários, 45 técnicos de radiologia e 35 fisioterapeutas, além de duas aeronaves de transporte medicalizado (um Suem e um da Guardia di Finanza) e uma central de coordenação instalada no Codivilla com pessoal do 118.
No Villaggio olimpico de Fiames, por orientação do COI, a assistência inclui também profissionais preparados para acomodar a diversidade linguística e cultural dos atletas: intérpretes e mediadores são parte da rotina médica, garantindo que as decisões clínicas e a informação cheguem com clareza aos protagonistas e às suas comissões técnicas. É um detalhe que diz muito sobre a transformação do grande evento esportivo em um pequeno ecossistema de serviços integrados.
Em termos mais amplos, o dispositivo de Milano‑Cortina revela uma transformação moderna do serviço médico em eventos esportivos: não basta responder ao trauma; é preciso integrar logística, tecnologia, comunicação e diplomacia cultural. O legado possível — se bem documentado e avaliado — pode fortalecer redes de urgência regionais e deixar um saldo de capacidades para além das medalhas.






















