Por Marco Severini – Espresso Italia
Relatos do Financial Times apontam que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky estaria considerando convocar eleições presidenciais na primavera, acompanhadas por um referendo sobre um possível acordo de paz. Fontes ucranianas e ocidentais contactadas pelo jornal indicam que essa movimentação política surge sob pressão da administração do presidente norte-americano Donald Trump, que teria exigido votação até 15 de maio — sob pena de revisão das garantias de segurança oferecidas pelos EUA.
Segundo o mesmo informe, a data simbólica de 24 de fevereiro, quarto aniversário da invasão russa, poderia ser escolhida para o anúncio oficial. Tal calendário representa um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico: ao combinar urnas e plebiscito, Kiev procuraria converter respaldo popular em mandato político capaz de sustentar negociações externas. Observadores ocidentais citados pelo FT alertam, contudo, que nos bastidores há quem associe o impulso pela votação à lógica da reeleição de Zelensky.
Oficiais do governo ucraniano, por sua vez, relativizam as previsões. Uma fonte do gabinete presidencial declarou ao Rbc-Ukraine que “não haverá anúncio enquanto não existirem condições de segurança adequadas”, questionando, assim, a hipótese de um pronunciamento já no dia 24 de fevereiro. A declaração evidencia os alicerces frágeis da diplomacia: legitimidade eleitoral não se dissocia da segurança territorial, e qualquer calendário imposto externamente enfrenta a realidade das linhas de frente.
Na mesma madrugada, a Rússia intensificou a pressão militar: um ataque com 129 drones dirigido ao território ucraniano foi relatado pelas Forças Aéreas de Kiev. Segundo as autoridades, 112 aeronaves não tripuladas foram interceptadas e abatidas; 15 acertaram oito alvos não especificados. O comando aéreo alertou que o ataque ainda prosseguia e que permaneciam normas de segurança em vigor.
Além disso, um ataque aéreo na região de Kharkiv resultou na morte de um homem de 34 anos e de seus três filhos — uma menina de dois anos e dois meninos de um ano —, informou a procuradoria regional ucraniana. A mãe, grávida de oito meses, sofreu ferimentos graves, incluindo trauma craniano e queimaduras; a casa ficou completamente destruída. A procuradoria abriu uma investigação preliminar por crimes de guerra relacionados à morte de civis.
O quadro atual desenha um deslocamento de influências: de um lado, a pressão diplomática externa que tenta acelerar decisões políticas em Kiev; do outro, a tensão militar que corrói qualquer normalidade institucional. Como numa partida de xadrez, cada movimento — eleitoral, plebiscitário ou militar — altera as coordenadas estratégicas do conflito, redesenhando fronteiras invisíveis de influência.
Para a Ucrânia, a chave será equilibrar o imperativo de soberania política com a urgência de segurança. Para os aliados ocidentais, o desafio é calibrar incentivos e riscos sem desorganizar as defesas já estabelecidas. No plano prático, a decisão sobre datas e procedimentos eleitorais dependerá, em última análise, da capacidade de reduzir a violência e garantir condições mínimas de participação democrática.






















