Em mais um capítulo da arquitetura política que conecta Roma às frentes de conflito externas, a Dl Ucraina chegou ao plenário da Camera sob a égide da fiducia, entre manifestações da oposição e críticas contundentes dos chamados vannacciani a Salvini. A sessão, marcada por tensão e por uma coreografia parlamentar precisa, define os próximos passos num decreto com efeitos diretos sobre a vida de cidadãos ucranianos e sobre a política externa italiana.
As declarações de voto sobre a fiducia começaram a partir das 11h50, seguida pela chiamata a partir das 13h30 e pelo prosseguimento do exame do provvedimento a partir das 16h45. O texto, que o governo fez passar por meio do voto de confiança, contém medidas urgentes para a prorrogação da autorização à cessão de meios, materiais e equipamentos militares em favor das autoridades da Ucraina, o renovamento de permissos de permanência de cidadãos ucranianos e normas voltadas à segurança de jornalistas freelance. Após o trâmite na Câmara, o decreto segue ao Senado e precisa ser convertido em lei até 2 de março.
Na defesa da decisão do governo, o ministro da Defesa, Guido Crosetto, respondeu às críticas dos deputados lembrando que por mais que a opção pela fiducia seja vista como uma forma de contornar dissidências, ela também “obriga todos os representantes da maggioranza a dizer se continuam a apoiar” o governo. “Porre la fiducia non è un modo di scappare”, afirmou, sublinhando que a sua presença em plenário era a representação física da seriedade do ato. Crosetto foi além: disse que a medida não é fuga de uma crise interna, mas sim uma forma de torná-la mais evidente.
Ao ser questionado sobre o voto contrário dos parlamentares ligados ao general Vannacci, Crosetto citou uma imagem bíblica para reduzir a previsão a resultados: “Non lo so, dai frutti li riconosceremo” — expressão que, nas palavras do ministro, remete ao juízo pelos efeitos das ações.
Do outro lado do hemiciclo, a ofensiva veio de Futuro Nazionale e de figuras próximas a Vannacci. Edoardo Ziello, ex-membro da Lega e hoje em Futuro Nazionale no Gruppo Misto, acusou Salvini de contradição: segundo ele, o líder leghista sempre se manifestou contra o envio de armas à Ucraina, mas teria orientado seus parlamentares a votarem majoritariamente a favor. “La Lega non potrà scappare dalle sue responsabilità”, disse Ziello, anunciando Ordini del giorno que pedem a interrupção imediata das entregas de armamentos a Zelensky.
Ziello não poupou metáforas: afirmou que a coerência cabe a Salvini assim como a pontualidade cabe aos trens que ele supostamente deveria gerir como ministro dos Transportes — uma imagem que mistura responsabilidade administrativa e política, e que deixa explícito o contraste entre retórica e poder de decisão.
No lado de fora e no interior do Parlamento, manifestantes exibiram cartazes desafiais — entre eles frases direcionadas ao envio de fundos e suportes militares a Kiev — enquanto partidos como Avs, Movimento 5 Stelle e o Partido Democrático apontavam para uma “fratura na maioria”. A cena reproduz, por trás das mesas e votações, a construção e o desgaste de alianças políticas: alicerces que suportam decisões de alta carga simbólica e prática.
O decreto segue agora para o Senado, com a contagem regressiva até 2 de março para sua conversão em lei. A votação por meio de fiducia deixa claro que o governo escolheu usar o peso da caneta e da maioria para fixar a direção desta política externa — ao mesmo tempo em que abre uma fenda pública sobre coesão interna e coerência partidária.






















