Belluno torna-se palco de um movimento estratégico para a indústria europeia de óculos: nasce Innovereye, o primeiro centro mundial dedicado a acelerar a digitalização e a adoção de soluções de inteligência artificial no setor de óculos. Promovida por ANFAO, Confindustria Belluno Dolomiti e Aivisory, em colaboração com Certottica, a iniciativa foi desenhada a partir de um diálogo direto com as necessidades operacionais das empresas da cadeia produtiva.
O anúncio de Innovereye surge num momento em que Bruxelas tenta equilibrar duas exigências frequentemente em tensão: regulação e adoção tecnológica. De um lado, o AI Act — em vigor desde 1º de agosto de 2024 e com aplicação plena prevista para o verão de 2026 — estabelece um quadro jurídico com prazos distintos para proibições, códigos de conduta e sistemas de alto risco. De outro, a Comissão Europeia insiste que a integração de inteligência artificial nas empresas europeias permanece limitada: “apenas 13% das empresas europeias” utilizam IA, lembrou a vice‑presidente executiva Henna Virkkunen ao apresentar, em outubro de 2025, uma estratégia para aplicar IA nos setores industriais.
É nesse cruzamento — entre regulação, competitividade e transformação industrial — que se posiciona Innovereye. Não se trata de uma vitrine tecnológica, mas de um centro de acompanhamento concebido “de baixo para cima”, ancorado na demanda real das empresas. O projeto, resultado de mais de um ano de trabalho, nasce do diálogo contínuo com a filiera, com o objetivo de oferecer um ponto de referência estável para a transição da curiosidade tecnológica para a implementação concreta de soluções digitais.
Como afirma Lorraine Berton, presidente da ANFAO e de Confindustria Belluno Dolomiti, “Innovereye nasce da vontade de oferecer ao setor um ponto de referência dedicado à inovação”. Em minha leitura diplomática, essa formulação revela uma intenção clara: transformar a capacidade tecnológica em vantagem competitiva mensurável para empresas de todas as dimensões.
Belluno não foi escolhida apenas por simbolismo geográfico. O distrito, pela sua escala e especialização, é um dos principais polos manufatureiros globais da oculística: gera cerca de €2,8 bilhões em faturamento, responde por quase 28% do valor econômico provincial e contribui com mais de 70% das exportações locais. Em 2024, as exportações provinciais atingiram aproximadamente €5 bilhões, com os Estados Unidos como mercado principal — perto de €930 milhões, dos quais mais de 90% relativos ao setor de óculos.
Essa vocação internacional confere ao distrito grande resiliência, mas também exposição à volatilidade externa. O Monitor dos Distretti de Intesa Sanpaolo (outubro de 2025) identificou um arrefecimento conjuntural no primeiro semestre de 2025, com particular atenção à evolução do mercado americano. Nesse contexto, um centro como Innovereye representa uma jogada de antecipação estratégica: não apenas mitigação de risco, mas um reposicionamento do tabuleiro competitivo, onde a tecnologia e os padrões de conformidade europeia tornam‑se alicerces da competitividade futura.
Do ponto de vista prático, o centro propõe ações de apoio técnico, programas de formação, projetos pilotos e canais para conectar empresas e fornecedores de tecnologia. A abordagem é de “inovação aberta”, com ênfase em casos de uso que tragam retorno operacional e reduzam barreiras à adoção — elemento crítico para mover a taxa de utilização da IA além dos atuais 13% no mercado europeu.
Como analista atento às tectônicas de poder e às arquiteturas da produção, vejo Innovereye como um movimento que projeta Belluno para além de sua geografia: um nó estratégico no mapa europeu de transição digital. Em termos de xadrez industrial, é um movimento posicional que protege a base produtiva e simultaneamente cria linhas de ataque competitivas no mercado global.
Em suma, a iniciativa demonstra que a resposta europeia à era digital precisa combinar regras sólidas e centros práticos de adoção. Só assim será possível transformar a regulação — muitas vezes percebida como limitação — em vantagem competitiva sustentável para a indústria.





















