Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em Cortina d’Ampezzo, diante dos cinco anéis olímpicos na praça da cidade, Vladislav Heraskevych mostrou à imprensa um capacete singular: nele estão reproduzidas fotografias de jovens atletas ucranianos mortos desde o início da invasão russa. Alguns tombaram no front defendendo seu país; outros, civis, pereceram sob os bombardeios que atingiram cidades e estradas da Ucrânia. Heraskevych, skeletonista e porta‑bandeira de sua delegação, declarou a intenção de competir com aquele capacete na pista Eugenio Monti durante as Olimpíadas de Milano‑Cortina.
O que se seguiu é exemplar das tensões entre a frágil neutralidade proclamada pelo aparelho organizador e o contexto geopolítico que o esporte não pode — nem deve — simplesmente ignorar. O Comitê Olímpico Internacional (COI) decidiu vetar a manifestação: segundo os burocratas, a exibição das imagens configuraria violação da regra 50.2 da Carta Olímpica, que proíbe “qualquer forma de manifestação ou propaganda política, religiosa ou racial” nos locais olímpicos.
É legítimo perguntar onde começa a manifestação e onde termina o direito à memória. Expor rostos de mortos para lembrar uma guerra é ato político? Para muitos, é sobretudo um gesto memorial, uma reivindicação de humanidade que desafia a anestesia informativa que acompanha os conflitos à distância. Para o COI, porém, trata‑se de transgressão.
O contraste que mais chama atenção é outro: nesta mesma edição dos Jogos, o snowboarder Roland Fischnaller apareceu com a bandeira russa estampada em seu capacete — ato que tecnicamente também poderia incidir na mesma regra 50.2 — e não sofreu qualquer censura comparável. Mais ainda, Arkadij Dvorkovič, presidente da federação russa de xadrez, foi visto em traje com referências à URSS no estádio olímpico, sem repreensão pública. Trata‑se de inconsistência ou de um duplo padrão institucional? A resposta não é apenas retórica: ela diz respeito à aplicação seletiva de normas que pretendem manter o desporto afastado da política, mas acabam por reconhecer — implicitamente — que algumas manifestações são toleráveis quando consideradas “culturais” ou “nostálgicas”, e outras não quando recordam vítimas recentes de uma agressão.
Heraskevych também relatou um episódio que acentua a sensação de arbitrariedade: teria sido um funcionário do COI, identificado como Toshio Tsurunaga, a avisá‑lo para não usar o capacete. Quando o atleta mencionou publicamente o nome do dirigente, Tsurunaga teria demonstrado irritação com a exposição. “Do que tens medo, Tsurunaga, da verdade?”, perguntou o atleta, que garantiu não só a intenção de concorrer com o capacete, como a determinação de transformar um equipamento esportivo em um memorial público.
Há ecos históricos nesta tensão. Quando Mahatma Gandhi estendeu seu corpo sobre os trilhos para desafiar o império britânico, tratou‑se de um gesto de desobediência civil cuja força residia na não‑violência e na clareza moral. Em muitos sentidos, o capacete de Heraskevych busca a mesma claridade: lembrar rostos para contrariar o silêncio e a normalização da guerra. O COI, ao escolher punir ou tolerar, traça uma linha que excede a regra escrita e entra no campo da política simbólica do esporte.
Mais que uma disputa sobre um acessório, trata‑se de uma questão definidora sobre a função pública do esporte em tempos de conflito: afastar‑se inteiramente da política é, muitas vezes, tomar partido por quem tem mais poder para definir o que é ou não política. A decisão sobre o capacete de Heraskevych será, portanto, um teste sobre a coerência das instituições olímpicas em um mundo em que o apelo à memória e à justiça frequentemente se manifesta em sinais simples — e, para alguns, perturbadores.






















