Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Na arquitetura simbólica dos Jogos, há espaços tão decisivos quanto uma pista ou um ginásio: a cozinha de Casa Italia é um deles. Em Cortina, dois nomes do território bellunês reúnem memórias, produtos e técnica para oferecer aos atletas algo que vai além da nutrição: um pedaço de identidade. São os chefs Graziano Prest e Fabio Pompanin, responsáveis pelas cozinhas do Tivoli e do Camin, que chegam à quinta edição dos Jogos levando na bagagem a experiência de transformar alimento em consolo cultural.
Prest, com estrela Michelin há 24 anos e natural do Alpago, e Pompanin, cortinese de nascimento, comandam a brigada que inventa cardápios à medida de atletas e delegações. A exigência é dupla: atender às necessidades esportivas e, ao mesmo tempo, oferecer pratos que façam sentir-se em casa. Não é casual que, independentemente do continente — da Coreia ao Japão, da China à França —, uma constante reapareça: a preferência pela pasta al pomodoro. “Todos adoram a pasta al pomodoro, não há nada melhor”, diz Pompanin, lembrando que esse parece ser, paradoxalmente, um dos preparos mais difíceis de executar com dignidade num refeitório olímpico.
Os cardápios de Casa Italia em Cortina trazem receitas da montanha e lembranças do lar: canederli — que figuram entre as preferências de atletas como Dorothea Wierer —, os casunziei de beterraba que encantam Sofia Goggia, spätzle de espinafre com speck, gnocchi de batata com baccalà em preparação mais líquida, e raviólis de cogumelo. Há ainda um ovo bio das Dolomitas frito, combinado com o azul do Cadore e o amargor do radicchio de Treviso, e pratos de cervo, obrigatórios na Conca amparada pela tradição local.
A cozinha olímpica também é feita de improvisos e pequenas ousadias: Prest recorda a operação-tabuleta para levar às Olimpíadas de Tóquio beterraba e speck na mala — itens que ajudaram a montar os tradicionais casunziei. Em Pequim, trabalharam sob o rigor do tempo de Covid, quando os atletas viviam em regime de bolha. Mesmo assim, nomes como Federica Brignone e Sofia Goggia não deixaram de passar pela cozinha; Brignone, num gesto que traduz a relação entre o atleta e quem o alimenta, chegou a colocar sua medalha no pescoço de Prest e dizer: “você merece uma medalha também por essa pasta”.
Entre os atletas há rigores individuais: o fondista Federico Pellegrino é conhecido por seguir uma rotina alimentar estrita e prefere massas de trigo-sarraceno (farro) como parte de seu plano. Essa diversidade de exigências transforma a cozinha de Casa Italia num laboratório de adaptação: sabor, valor energético, recuperação e memória afetiva convivem na mesma travessa.
Como observador interessado nas intersecções entre esporte e cultura, vejo nessa cozinha um microcosmo eloquente. O alimento, mais do que combustível, é um vetor de identidade nacional e regional: traz histórias do território, dos currais e das mesas longas das valli, enquanto sustenta corpos que se lançam em performances máximas. Prest e Pompanin não apenas alimentam medalhistas; preservam uma narrativa: a de que competir e comer têm sempre uma relação simbólica que diz muito sobre quem somos.
Em suma, Casa Italia em Cortina é outro campo de disputa — por memórias, por sabores e por pertencimento. E, por enquanto, naquilo que conta para muitos atletas, a vitória se traduz muitas vezes em uma porção bem feita de pasta al pomodoro, um canederlo quente ou um casunziei que cheira a casa.






















