Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O dia em Cortina d’Ampezzo reafirmou que o esporte é, acima de tudo, palco de memórias coletivas e encontros inesperados entre tradição e espetáculo. No gelo da Olimpíada de Milão‑Cortina, a dupla italiana composta por Stefania Constantini e Amos Mosaner conquistou a medalha de bronze no duplo misto do curling, impondo‑se sobre a favorita Grã‑Bretanha, representada pela parceria «real» de Bruce Mouat e Jenn Dodds.
O resultado não foi apenas uma vitória esportiva: foi uma narrativa que entrelaça história do jogo e identidade local. O curling, esporte nascido na Escócia no século XVI e imortalizado em pinturas como «Caçadores na Neve» de Bruegel, foi transportado ao Canadá e elevado ao estatuto de paixão nacional — e hoje encontra na conca ampezzana um solo promissor para sua difusão italiana. Neste cenário, Stefania Constantini volta a assumir o papel de figura simbólica: campeã olímpica em Pequim e campeã mundial, ela e Mosaner repetem façanhas com a compostura própria de quem compreende o peso de representar uma cidade e um país.
A partida que decidiu o bronze teve o acréscimo de um detalhe quase cinematográfico: nas arquibancadas, a presença de Princess Anne, presidente do Comitê Olímpico Britânico, acompanhou cada lance. Com óculos escuros espelhados e um par de meias de lã em tom fúcsia que contrastavam com as luzes do gelo, a princesa observou atenta a atuação dos escoceses — atletas que, aliás, já ensinaram fundamentos do esporte a William e Kate. Também entre o público, o ator Stanley Tucci foi reconhecido, e uma fileira de crianças de uma escola primária entoou ‘‘Italia, Italia’’ a cada pedra lançada pelos anfitriões.
O contraste entre a efusiva torcida escolar e a compostura institucional de Buckingham Palace descreve bem a singularidade do acontecimento: houve sorrisos partidaristas, mas também uma celebração bipartidária da paixão pelo jogo. Para Cortina, a conquista tem significado resiliente. O prefeito Gianluca Lorenzi, jogador e treinador de curling, destacou que o momento pode fortalecer a base do esporte no país. “O curling costuma ganhar popularidade após as Olimpíadas, mas depois se dilui. Sinto que agora é diferente — grande mérito de Stefania Constantini”, comentou, valorizando a postura da atleta inclusive após a derrota apertada por um ponto ante os Estados Unidos.
Nos pormenores técnicos, a vitória italiana sobre a Grã‑Bretanha não foi um acaso: exigiu precisão nos lançamentos, leitura de gelo e serenidade estratégica, qualidades que a dupla italiana já demonstrou em alto nível internacional. Para além do resultado, o episódio suscita reflexões sobre como cidades‑laboratório do esporte — como Cortina — podem transformar momentos olímpicos em políticas duradouras de formação e infra‑estrutura. O próprio prefeito cogita a compra das “stones” olímpicas como peça de memória material e ferramenta de legado.
Em síntese, o bronze de Constantini e Mosaner é uma narrativa que conjuga tradição do esporte, espetáculo internacional e potência simbólica local. É também um lembrete: enquanto se registram medalhas, se trava uma disputa em torno da permanência do interesse público, da construção de centros de formação e da preservação de memórias que conferem sentido às vitórias.
— Espresso Italia






















