Arianna Fontana não parece, por ora, obcecada pelo record de Edoardo Mangiarotti. Depois de conquistar sua 12ª medalha olímpica — distribuída em seis edições dos Jogos de Inverno — a atleta do short track entrou de forma inequívoca na história do esporte italiano. Ainda assim, a proximidade com o marco de 13 pódios deixado pela lenda da esgrima italiana permanece como meta latente: não um capricho de imprensa, mas um desafio simbólico que cruza gerações.
O contexto importa. Edoardo Mangiarotti nasceu em Renate, na Briança, em 1919, num ambiente familiar em que a esgrima já era parte da identidade: o pai, Giuseppe, havia vestido a camisa italiana nos Jogos de 1908, em Londres. Único canhoto entre os parentes esgrimistas, Mangiarotti participou de cinco edições olímpicas entre 1936 e 1960 e construiu um palmarés raro — 6 ouros, 5 pratas e 2 bronzes entre espada e florete — que o colocou à frente de Paavo Nurmi na contagem total de pódios mundiais. Além dos triunfos olímpicos, sua carreira inclui 26 medalhas em campeonatos mundiais e uma trajetória que se estendeu para o jornalismo e a gestão esportiva após a aposentadoria.
Há um aspecto civilizatório nessa justaposição entre Fontana e Mangiarotti. Não se trata apenas de números; trata-se da persistência de um símbolo esportivo que atravessa o século XX e chega ao XXI. Arianna Fontana iniciou sua corrida em Torino 2006, ainda menina, e construiu uma carreira longa, adaptativa e socialmente significativa para o esporte italiano, especialmente para as regiões menos óbvias do país no que toca à tradição do gelo. Seu leque de medalhas não é apenas pessoal: é narrativa coletiva, um mapa de mobilidade, investimento e reconhecimento do short track na Itália.
O próprio Mangiarotti, figura que morreu em 25 de maio de 2012, em Milão, aos 93 anos, encarna outro tipo de ligação entre esporte e sociedade. Pai de Carola — também esgrimista olímpica, presente em Montreal 1976 e Moscou 1980 —, ele foi além do papel de atleta; foi articulador institucional e voz da própria modernização da esgrima italiana. Quando faleceu, a jovem que anos depois se tornaria rainha do short track já havia começado, sem saber, sua aproximação do recorde.
É oportuno lembrar que o recorde de Mangiarotti não é apenas uma estatística atemporal: foi forjado em décadas de competição, em modalidades e contextos distintos, e reflete um ecossistema esportivo que permitiu longevidade competitiva. A trajetória de Arianna Fontana opera em contexto diferente — tecnologia, treinos, calendário de competições e visibilidade midiática mudaram — mas conserva o eixo comum de sacrifício, consistência e significado público.
Fontana declara que não está pensando no recorde. Essa complacência calculada é, talvez, uma estratégia ética e psicológica: reconhecer o feito histórico sem reduzir sua carreira a uma busca numérica. Resta ao público e à memória esportiva observar a curva dos eventos: caso chegue ao 13º pódio, será mais que ultrapassar um número; será a inscrição de uma atleta contemporânea numa tradição de excelência que atravessa o país e o tempo.
Como repórter e analista, observo nesse encontro entre passado e presente algo maior do que o triunfo individual: a capacidade do esporte italiano de reinventar símbolos e de manter o diálogo entre gerações. Se Arianna Fontana um dia superar Edoardo Mangiarotti, não será apenas uma nova linha em uma tabela, mas um gesto histórico que conecta Renate a Sondalo, Milão a Piemonte, e o país todo a uma memória compartilhada.





















