Por Chiara Lombardi — À primeira vista, a nova adaptação de Cime tempestose, dirigida por Emerald Fennell e protagonizada por Margot Robbie e Jacob Elordi, parece operar num universo paralelo ao do romance de Emily Brontë. O que deveria ser um exame torrencial das paixões humanas transforma‑se, na tela, em uma versão hipercolorida e quase cartunesca do clássico vitoriano.
Não há problema em reinterpretar um clássico, muito menos em buscar uma linguagem cinematográfica contemporânea. O problema — maior e mais incisivo aqui — é a perda do núcleo sensorial e moral que faz de Wuthering Heights um espelho do nosso tempo e da condição humana. Em vez disso, Fennell entrega imagens de superfície: Margot Robbie (35 anos) evoca mais uma Barbie pós‑industrial do que a força telúrica de Catherine Earnshaw; Jacob Elordi (28 anos) é reduzido a uma sex machine plástica, mais efeito do figurino e do ângulo de câmera do que figura trágica.
O romance de Emily Brontë constrói sua tensão no paralelo entre forças incontroláveis da natureza — o vento, a tormenta, a própria geografia das charnecas — e os impulsos humanos que não se deixam domesticar. A casa chamada justamente de Cime tempestose é metáfora: não se trata de bem e mal, de certo e errado; trata‑se de fenômenos, de marés afetivas que puxam os personagens sem pedir licença. Como observou o anglista Mario Praz, «o amor de Catherine é isento de sensualidade como a força que atira a maré à lua, o ferro à calâmita», uma afirmação que lembra que o amor ali é quase um elemento natural, bruto e inevitável.
Fennell, que já havia polarizado opiniões com Saltburn, parece repetir o mesmo gesto: o sublime vira pastiche. As tempestades que deveriam assombrar a brughiera são reduzidas a aguaceiros cenográficos; a dimensão atmosférica, que no livro funciona como personagem, fica plana. A oposição que Brontë costura entre a aspereza dos Earnshaw e a frieza modelada da família Linton — um contraste entre matéria viva e fachada — é transformada numa caricatura visual entre sujeira miscelânea e verniz pós‑moderno.
Há, contudo, um movimento cultural interessante a ser notado nesse fracasso estético: a tentativa de Hollywood de traduzir dor e desejo através de ícones pop. O problema é que, quando a tradução perde a textura afetiva, resta apenas um produto que fala mais da ansiedade de mercado do que do texto fonte — o “roteiro oculto da sociedade” aqui vira roteiro de entretenimento que não se incomoda em apagar contradições essenciais.
Assistir a Cime tempestose de Fennell é, portanto, experimentar um reframe da realidade brontëana. A diretora aposta numa linguagem sensorial agressiva e numa iconografia de feira: tudo é exagero, tudo é caricatura, nada é tragédia. Para quem guarda a memória literária do romance, a sensação é de perda — como se um quadro expressionista tivesse sido reproduzido em plástico sintético, sem o grau de penetração emocional que torna o original um clássico.
Não é só uma crítica formal. É uma leitura cultural: a adaptação diz algo sobre como a indústria contemporânea prefere confortar o olhar com superfícies chamativas do que desafiar o espírito. E aí reside a fratura entre obra e adaptação. Se o cinema quer renovar um clássico, precisa, antes de mais nada, entender e preservar o que o clássico tem de intransferível — a sua tempestade interior. Sem isso, resta apenas um produto ruidoso, bonito às vezes, vazio na maior parte do tempo.






















