Por Chiara Lombardi — Em mais uma volta ao grande palco italiano, Malika Ayane assina um retorno que quer ser autorrevelador: este é, nas palavras da própria artista, o Sanremo de Malika Ayane. Depois de cinco passagens — a de 2021 marcada por plateias vazias durante a pandemia ficando na memória como “meio Sanremo” —, ela abre a janela para um registro sonoro onde o eletrônico encontra um sopro mediterrâneo.
O tema em competição, Animali notturni, chega como um exercício de elegância sintética e sensorial, um tema sobre a consciência de si e o reencontro com o próprio desejo. Malika diz querer surpreender a si mesma e cortar, definitivamente, a ideia de que a validação do trabalho venha apenas de fora. Há aqui uma reivindicação íntima: a arte como autoafirmação, o palco como espelho do nosso tempo.
Musicalmente, a canção transita entre um french touch refinado e tons mediterrâneos, desenhando uma paisagem noturna onde a intérprete se declara semelhante à sua gata, Marmitta — ora adormecida com classe, ora incômoda sem motivo aparente. A imagem funciona como metáfora e narrativa: a artista que circula entre aparições suaves e interrupções intencionais, criatura noturna que vive igualmente do silêncio e do acontecimento.
No plano temático, Malika explora o amor que se escolhe continuamente — não o sopro fugaz, mas a construção persistente da afetividade. Lembra do Sanremo de 2021, quando cantou sobre amores efêmeros; agora propõe uma continuidade, uma solidez, um pacto repetido entre parceiros. É um reframe da realidade afetiva, quase como alterar a fotografia do passado para focar o que permanece.
Em tom mais amplo e político, a artista reafirma solidariedade à causa palestina, mas se distancia de chamadas ao boicote de palcos internacionais, como o protesto pela presença de Israel no Eurovision. Referindo-se ao comentário do técnico de voleibol Julio Velasco sobre a exclusão de atletas russos em razão de sua nacionalidade, Malika defende que os palcos devam ser oportunidades para mensagens de inclusão e paz, não para exclusões que penalizem indivíduos por decisões de governos.
Quanto à presença feminina no festival, a cantora aponta um dado incômodo: as mulheres continuam sendo minoria — aproximadamente um terço do elenco — e, no ano anterior, não chegaram sequer ao grupo final de cinco. Ela recorda que o pódio não tem sido seu destino frequente — o melhor resultado registrou um terceiro lugar em 2015 — mas brinca que, se a carreira permitir mais vinte anos assim, aceitaria dividir o lugar de honra com colegas.
Sanremo é também primeiro passo para um novo capítulo discográfico: Malika prepara um álbum, depois de cinco anos desde o último trabalho. As canções nasceram em colaboração com velhos e novos parceiros; o disco deve sair no outono, com o objetivo claro de sustentar um tour que estreia em 1º de novembro, em Fermo. Entre trajetórias e experimentos, ela acumulou vivências em musicais como Cats e a montagem de Brokeback Mountain, que ajudaram a ampliar sua paleta interpretativa.
Ao colocar no centro a busca por sentido e a recusa da aprovação externa, Malika Ayane desenha um retrato do artista contemporâneo: alguém que transita entre o entretenimento e o comentário social, entre a elegância do arranjo e o roteiro oculto da sociedade. Animali notturni não é apenas uma canção de competição; é um pequeno manifesto sobre amor escolhido, resistência íntima e o lugar dos corpos femininos nos palcos maiores — um espelho sutil do nosso tempo.





















