Na véspera de um dia que pede memória coletiva, a televisão italiana propõe mais do que entretenimento: propõe um espelho do nosso tempo. Nesta terça-feira, 10 de fevereiro, em primeira serata na Rai 1, será exibido o telefilme Il Marciatore – la vera storia di Abdon Pamich, que reconstrói a trajetória de um dos nomes mais emblemáticos da marcha atlética italiana. A produção acompanha a vida de Abdon Pamich, desde a fuga e o exílio até as glórias nos campeonatos europeus e nas Olimpíadas.
Escolher a data de exibição no Giorno del Ricordo — dia dedicado às vítimas das foibe e ao êxodo giuliano-dalmata — não é casualidade: o filme transforma a biografia esportiva em um palimpsesto histórico, onde a conquista atlética e a memória coletiva se entrelaçam. Para o diretor Alessandro Casale, contar a vida de Pamich “significa narrar muito più di una carriera sportiva”. Nas palavras do cineasta, a história do atleta é o retrato de um homem que fez da constância, da determinação e da resiliência o seu estilo de vida. A sua marcha funciona, assim, como uma metáfora existencial — um roteiro que parte das ruínas deixadas pela guerra e caminha rumo à glória olímpica.
O telefilme explora tanto o percurso público quanto os momentos íntimos, revelando o esforço cotidiano, os treinos, as competições e também as sombras do passado que acompanham o protagonista. Em cena, a técnica da marcia surge como linguagem corporal e narrativa: passos que traduzem persistência, passos que reescrevem uma identidade deslocada. Essa é a semiótica do viral pessoal de Pamich, que se transforma em um símbolo mais amplo — o reframe de uma Itália que se reconstrói após o trauma.
O longa para a televisão não se limita à biografia esportiva: é um ensaio sobre memória, exílio e pertença. Ao seguir a trajetória de um atleta que venceu em pistas e palcos europeus, o filme também propõe ao espectador uma reflexão sobre como histórias individuais servem de espelho para transformações coletivas. A direção de Casale aposta em uma narrativa sóbria, elegante, que honra o fato e convida à contemplação — como se estivéssemos diante de um plano-sequência que revela camadas sucessivas de sentido.
Para o público contemporâneo, acostumado a versões rápidas do passado, Il Marciatore oferece ritmo diferente: um compasso marcado, quase musical, que acompanha os passos do protagonista e permite perceber a dureza e a beleza desse percurso. Ver Pamich em cena é testemunhar a fusão entre o gesto atlético e o gesto histórico — a marcha que atravessa tempos e territórios.
Para quem acompanha cultura e memória, o telefilme será tanto uma oportunidade de redescoberta quanto um convite à conversa sobre como lembramos e representamos o passado. É a narrativa de um atleta que virou mito, mas também a história do roteiro oculto da sociedade italiana do pós-guerra: um eco cultural que merece ser visto com atenção.






















