Taratata voltou à primeira serata da Canale 5 apresentado por Paolo Bonolis, e o espectáculo montado na ChorusLife Arena, em Bérgamo, trouxe nomes como Alessandra Amoroso, Annalisa, Biagio Antonacci, Luca Carboni, Gigi D’Alessio, Elisa, Emma, Giorgia, Ligabue, Fiorella Mannoia, Negramaro e Max Pezzali. Um elenco que poderia rivalizar qualquer festival, com exceção talvez dos veteranos Pooh, curiosamente ligados à mesma cidade.
O formato Taratata tem uma genealogia europeia clara: nascido em 1993 na France 2 pela mão de Jean-Louis Blot e Nagui, tornou-se instituição, acumulando mais de 600 episódios entre edições regulares, especiais e revival. O seu valor histórico está na celebração da música ao vivo e na proposta de dueto e reinvenção dos repertórios — uma espécie de laboratório performativo em palco.
Na Itália, tentativas de adaptação surgiram no final dos anos 90 — com nomes como Enrico Silvestrin, Marco Morandi e Vincenzo Mollica, produtores sob a batuta de Bibi Ballandi — mas os resultados não convenceram. Agora, com Bonolis, surge uma nova encenação dessa tradição. Só que o apresentador não se limita a introduzir as canções: ele procura enquadrá-las numa narração. Como nascem? Que papel desempenham as periferias? Qual é a relação com a província? A intenção é nobre, quase documental. Mas a execução deixa pistas de um roteiro diferente.
Bonolis fala em inserir cada música num «binário di racconto». A metáfora ferroviária é sedutora — todo bom crítico adora um transporte narrativo — porém o risco é a previsibilidade: um comboio que segue trilhos raramente desvia para surpresas. Mais perturbador, porém, é a impressão de que essa busca por «lugares onde nasce a canção» serve tanto a um projeto editorial quanto ao brilho do apresentador. Em outras palavras, há um traço de narcisismo que, por vezes, privilegia o discurso do anfitrião em detrimento da fluidez do show.
Do ponto de vista dramático, a plateia televisiva reage de forma distinta ao familiar. Quando ouvimos uma canção que já conhecemos, participamos: cantamos, acompanhamos, sem a tensão competitiva que define festivais como o Sanremo. E aí reside outra limitação prática: Sanremo dificilmente acolheria um elenco tão livre e descomprometido com a disputa — o seu dispositivo competitivo exige outras estratégias.
Os melhores momentos do programa surgem quando os artistas deixam a «zona de conforto» de seus repertórios e inventam encontros inesperados, quando a canção se transforma num espelho partilhado. Esses instantes revelam o valor do formato: a performance como eco cultural, onde a música reescreve sua própria memória ao vivo. Quando isso não acontece, a sensação é a de um espetáculo que privilegia a voz do apresentador em vez do diálogo entre intérpretes.
O Taratata da Rai permanece, para muitos, apenas uma lembrança mal resolvida. A nova encarnação com Bonolis traz energia e elenco, mas também impõe um roteiro oculto: o do próprio apresentador. Em tempos em que o entretenimento funciona como espelho do nosso tempo, vale perguntar — e este é o ponto que fica no ar — se o formato quer refletir a canção ou o reflexo do apresentador.
Chiara Lombardi, Espresso Italia






















