Por Chiara Lombardi — Em um movimento que parece ao mesmo tempo experimento de laboratório e declaração estética, Darren Aronofsky assinou uma série sobre a Guerra de Independência americana inteiramente gerada por ferramentas de machine learning. Batizada de On This Day… 1776, a produção foi realizada em parceria com a divisão de pesquisa da Google, DeepMind, e utiliza o motor de imagem Veo 3 para compor rostos, figurinos e cenas.
A iniciativa parte do estúdio recém-fundado por Aronofsky, Primordial Soup, e ganhou financiamento do empresário Marc Benioff, proprietário da revista Time, onde os dois primeiros episódios — curtas de poucos minutos — já foram divulgados no canal do veículo no YouTube. Os capítulos introduzem o início da rebelião das colônias contra o rei George III e a chegada do pensador Thomas Paine, figura-chave entre os chamados pais fundadores dos Estados Unidos.
O formato de lançamento seguirá um calendário curioso: novos episódios sairão semanalmente ao longo de 2026, sincronizados com o aniversário dos eventos narrados. É um jogo de espelhos temporais: a história que conta 1776 chega em 2026 marcada por uma estética que recicla e reprograma rostos humanos em pixels.
O efeito visual é deliberadamente estranhante. Não há atores reconhecíveis diante da câmera; as vozes — únicas marcas humanas presentes — são de profissionais do sindicato americano SAG, enquanto a trilha sonora ficou a cargo do compositor Jordan Dykstra. O resultado, para alguns críticos, soa monocorde: performances sem os gestos imprevisíveis do ator vivo e imagens que, segundo resenhas, exibem olhos “sem brilho” e rugas que mudam de cor e profundidade.
O Guardian foi duro, rotulando a obra como um “requiem para um cineasta”, enquanto o Hollywood Reporter resumiu o experimento em um rótulo ácido — “AI slop” — destacando um aspecto que muitos temem: qualidade técnica elevada, mas alma questionável. O trailer, segundo o site Deadline, recebeu mais “dislikes” do que “likes” em plataformas públicas, reflexo da polarização do público diante da estética digitalizada.
Aronofsky, porém, defende o movimento como continuidade histórica da relação entre cinema e tecnologia: “Do invento dos irmãos Lumière às ferramentas atuais, o cinema sempre foi guiado por inovações. É hora de explorar e modelar esses instrumentos para o futuro da narrativa”, disse ele ao lançar a Primordial Soup. Essa defesa abre, por outro lado, um roteiro oculto de debates: onde termina a criatividade e onde começa a imitação algorítmica? Como regulamentar uma indústria que permite a produção de longas e até megasséries a custos drásticamente menores, sem atores, em prazos reduzidos?
São perguntas ainda sem resposta clara, mas que atuam como um espelho do nosso tempo — a produção cultural refletindo a ansiedade de uma era que reescreve a própria face do representado. On This Day… 1776 funciona, portanto, também como um experimento semiótico: pergunta se a fidelidade histórica e a intensidade dramática podem sobreviver quando o intérprete é um conjunto de algoritmos.
Mais do que um relato sobre um episódio fundador da história americana, a série de Aronofsky coloca em cena o debate sobre autorias, economias de produção e memórias culturais em processo de reprogramação. Se o cinema é um espelho, aqui ele nos devolve um reflexo remasterizado — nítido, tecnicamente virtuoso, e ainda assim inquietantemente distante.






















