Como observadora do zeitgeist cultural, digo sem rodeios: a promessa de entretenimento muitas vezes carrega um espelho do nosso tempo. Em Da Belfast al Paradiso, nova série em streaming, esse espelho se refrata entre o riso cortante do humor negro e a gravidade da história irlandesa.
Com estreia marcada para 12 de fevereiro na Netflix, a produção é assinada pela roteirista Lisa McGee, a criadora de Derry Girls, e traz à tela oito episódios dirigidos em sua totalidade por Michael Lennox. O resultado, pelo que o material de divulgação sugere, é um híbrido entre comédia ácida e drama histórico — uma combinação que já se mostrou fértil para McGee e sua equipe criativa, que se reapresenta, em larga parte, intacta.
No núcleo da série está um mistério, mas não um mistério isolado de tramas policiais; trata-se de um enigma que convive com a memória coletiva e com histórias pessoais que se estendem por décadas. Ao lado dessa investigação, pulsa uma poderosa história de amizade, capaz de resistir às marés do tempo. As chamadas “verdes colinas da Irlanda” servem tanto como cenário quanto como símbolo: paisagens que, à primeira vista, parecem pacíficas, mas que guardam camadas — sociais, políticas e emocionais — prontas para serem desconstruídas.
O estilo narrativo remete ao registro já conhecido de McGee: personagens aparentemente comuns que carregam – e transmitem – o roteiro oculto da sociedade. É justamente nessa tensão entre o íntimo e o histórico que a série encontra sua força dramática. O humor funciona como um mecanismo de sobrevivência, um refrão que permite ao espectador transitar entre as falas leves e as lacunas do passado.
Como analista cultural, vejo em Da Belfast al Paradiso um convite a olhar além do óbvio. A série promete trabalhar a semiótica do viral e da memória em paralelo: o que permanece, o que se apaga e o que se reescreve quando amigos e comunidades tentam dar sentido a eventos que marcaram suas vidas. A direção uniforme de Michael Lennox também sugere uma unidade estética e tonal — característica que pode transformar o conjunto em uma peça coesa, onde cada episódio é um espelho facetado do anterior.
Para quem acompanhou Derry Girls, há aqui a expectativa de reencontrar o olhar perspicaz de Lisa McGee sobre a Irlanda: não como folclore, mas como um cenário de transformação, com personagens que resistem, riem e revisitam traumas sob a luz do absurdo. Em tempos em que a cultura pop frequentemente funciona como reframe da realidade, a nova série promete não apenas entreter, mas também instigar um debate sutil sobre memória, identidade e solidariedade.
Em suma: marque no calendário. A chegada de Da Belfast al Paradiso à Netflix em 12 de fevereiro é mais do que uma estreia — é um pequeno evento cultural onde o riso e o mistério dialogam com o passado e iluminam, por instantes, o roteiro oculto da sociedade.






















