Por Chiara Lombardi — Em um gesto que parece um corte de cena bem cronometrado, Massimo Gramellini transfere ao palco aquilo que por décadas explorou nas páginas: a cartografia do afeto humano. No dia 16 de fevereiro, no Teatro Colosseo, em Turim, estreia «L’ora di educazione sentimentale», espetáculo concebido ao lado da esposa, a escritora Simona Sparaco, que promete ser tanto uma aula íntima quanto um ensaio público sobre o que significa amar hoje.
Gramellini, figura já consolidada no jornalismo italiano e autoproclamado “professor emérito” de uma disciplina sem manual, prefere assumir um lugar menos hierárquico: “eu não sou o professor, sou o aluno”. É justamente essa humildade — ou essa sinceridade performática — que anima a proposta: no palco, ele se apresenta como o estudante repetente de um ofício que não cabe em livros didáticos. Não existe um compêndio definitivo sobre como evitar as armadilhas do coração, mas há caminhos para reconhecê-las e, talvez, mapear rotas de saída.
Ao longo da carreira, Gramellini se dedicou a temas que, por tradição, eram vistos como menores no jornalismo político: cartas do coração, dilemas íntimos, as pequenas e grandes tragédias afetivas. Para alguns isso soou como bomismo, para ele é empatia e humanidade — verbos vitais num tempo marcado por ruídos e mal-entendidos emocionais. Em sua leitura, vivemos uma era de confusão semântica: muitos confundem emoção com sentimento. A emoção é um lampejo; o sentimento, um território mais denso e duradouro — o que sentimos por um filho, por exemplo, é um sentimento, não apenas uma emoção.
O que nos mantém em laços tóxicos? Segundo Gramellini, a resposta passa pela desvalorização de si: aceitamos migalhas, toleramos pratos envenenados, por medo de perder a frágil zona de segurança emocional. Há quem viva em uma fila de espera amorosa por décadas — imagem que o autor usa para escancarar como o conformismo sentimental atua como um roteiro oculto que reprime o desejo de mudança.
O retorno ao amor, para ele, também tem rosto de carta. Foi lendo a posta del cuore que Gramellini decidiu se recolocar no palco da vida. Conta a história de um homem que encontrou um novo amor após acreditar que havia terminado com o sentimento — só para descobrir que a parceira enfrentava um tumor. A experiência paradoxalmente reforçou a sensação de estar vivo. Aos cinquenta e poucos anos, Gramellini escolheu viver novamente.
Por fim, a polêmica recorrente: por que a educação sentimental encontra tantas resistências nas escolas? A resposta é política. Há medo de instrumentalização, do receio de que a formação da personalidade seja confundida com doutrina. Alguns associam equivocadamente esse tipo de ensino a disputas sobre teorias de gênero, quando, na verdade, trata-se de trabalhar a capacidade de reconhecer e gerir emoções e sentimentos — uma alfabetização afetiva que dialoga com a cidadania.
O espetáculo de Gramellini chega como um espelho do nosso tempo — não apenas para entreter, mas para refletir, para colocar sob a luz do palco o roteiro íntimo que rege nossos afetos. Em tempos de fragmentação e virais, levar ao teatro a potência do amor é um gesto político e estético: uma tentativa de reframe da realidade que nos convida a ler, sentir e, quem sabe, reescrever nossas próprias histórias sentimentais.


















