Ciao, sou Erica Santini. Ao sabor da brisa do Tirreno, volto meus olhos poéticos para um dos espetáculos mais irônicos e sensoriais da Itália: o Carnevale di Viareggio. Em 2026, a tradição da satira política reaparece nos grandes carros alegóricos de cartapesta que desfilam ao longo do lungomare durante os seis Corsi Mascherati. Mas há um detalhe que não passa despercebido: os rostos dos maiores líderes italianos parecem ter se volatilizado, deixando o palco da sátira vazio para figuras internacionais e críticas aos sistemas globais.
Depois de um tímido retorno em 2025, a ironia voltou com força, porém de maneira seletiva. Os mestres da cartapesta, verdadeiros poeti delle macchine, escolheram mirar em presidentes do mundo, instituições que rangem e na instabilidade das estruturas globais. Ainda assim, os políticos nacionais — aqueles que outrora viravam máscaras caricatas e alvos de escárnio — foram deixados de fora, como se estivessem intocáveis ou, quiçá, irrelevantes.
Essa ausência remete àquela frase imortal de Giulio Andreotti, o mais retratado nas obras dos artigiani: “un politico non vale niente se non è raffigurato sui carri di Viareggio”. Hoje, essa máxima soa como um espelho levemente opaco: a cidade prefere satirizar o mundo do que refletir sobre si mesma. Na prática, o resultado é um desfile que ri alto das contradições globais e, ao mesmo tempo, sussurra sobre mudanças na cena política doméstica.
O verdadeiro coração criativo do evento é a Cittadella, onde a Fondazione Carnevale, instalada desde 1987, coordena a gestação dessas esculturas efêmeras. Ali, entre oficinas e cheiros de tinta, os carros nascem, crescem e repousam até o dia da sfilata. Do primeiro esboço até o desfile são necessários pelo menos seis meses: tempo para que a ideia resista às pressões do tempo e ganhe textura, cor e sarcasmo.
Entre os trabalhos desta edição, se destaca “Il Gran Casino del mondo” assinado por Lebigre-Roger, que reúne — como numa mesa de jogo — os grandes atores do panorama internacional, transformando geopolítica em cena carnavalesca. É visualmente potente e deliciosamente insolente: um convite a olhar, rir e ponderar.
Mas, para mim, que caminho pelas ruas com a sensibilidade da hospitalidade sofisticada, o encanto vai além da crítica explícita: é no cheiro da cola e do papel, no brilho dos olhares das multidões, na luz dourada que beija a orla, que se saboreia a história. O Carnevale di Viareggio é um convite ao Dolce Far Niente crítico — uma pausa para observar como a arte popular transforma o presente em fábula.
A ausência dos líderes italianos nos carros não é apenas um dado jornalístico; é um sintoma cultural. Pergunta-se se se trata de autocensura, de estratégia dos artistas ou simplesmente de uma mudança de humor coletivo. De toda forma, a cartapesta continua a dizer mais do que mil editoriais, e a Cittadella permanece o santuário onde a sátira encontra forma e alma.
Andiamo: se você ainda não viu os desfiles, programe-se para sentir a textura do tempo nas paredes dos carros, ouvir o riso que denuncia e perceber que, mesmo quando certos nomes desaparecem da cena, a crítica encontra novas máscaras. Viareggio nos lembra que a festa não é só folia — é memória, comentário e, acima de tudo, beleza irônica.






















