Milano Cortina — O eslovaco? Não. É o momento de correção: o foco é o esportista ucraniano de skeleton Vladyslav Heraskevych, cujo gesto de memória encontrou uma resposta oficial do CIO durante os Jogos de Inverno de Milano Cortina 2026. Após um encontro com a equipa técnica do atleta, o Comitê decidiu permitir que ele competisse com uma faixa preta no casco em sinal de luto, mas negou a autorização para a exibição de retratos dos colegas mortos no mesmo capacete.
Segundo explicou Mark Adams, diretor de comunicação do CIO, houve um diálogo informal com o treinador e o entorno do atleta. O Comitê compreende o desejo de Heraskevych de prestar homenagem aos atletas ucranianos falecidos e reconhece que ele já manifestou seu pesar durante treinos e em publicações nas redes sociais. Ainda assim, Adams ressaltou que a participação nos Jogos está sujeita às normas da Carta Olímpica e às diretrizes que regulam as expressões pessoais dos atletas durante as competições.
“O capacete apresentado viola essas diretrizes”, afirmou Adams em coletiva. Em termos práticos, o CIO fez uma exceção limitada: permitir a faixa preta como símbolo de luto, mas recusar imagens de rostos ou retratos no equipamento de competição. A motivação formal é manter o foco nas performances esportivas, garantir tratamento igualitário entre competidores e preservar os Jogos como um espaço separado de manifestações políticas, religiosas ou de outra natureza que possam provocar desigualdade ou controvérsia.
Heraskevych é figura conhecida no circuito do skeleton e sua postura — tanto dentro das pistas quanto fora delas — tem significado múltiplo. O pedido de portar retratos no casco transcende uma iniciativa pessoal: é um gesto de memória coletiva e de denúncia simbólica, inscrito no drama mais amplo da guerra que atinge a Ucrânia. A decisão do CIO reflete, portanto, o esforço institucional de equilibrar dois imperativos conflitantes: o direito individual de expressão e a obrigação de salvaguardar a neutralidade formal dos Jogos.
Como analista, cabe observar que a síntese adotada pelo Comitê — permitir a banda de luto, vetar as imagens — é tecnicamente elegante, porém politicamente densa. É uma solução que preserva a estética e a segurança do equipamento (normas técnicas também pesam nessas decisões) e, ao mesmo tempo, procura evitar precedentes que autorizem a instrumentalização das arenas olímpicas por mensagens de caráter marcadamente político.
Para os espectadores e para a memória esportiva, o episódio reforça uma compreensão mais ampla do que representam os atos individuais em contextos internacionais: um capacete não é apenas proteção; é um suporte simbólico. A escolha de permitir a faixa preta permite que Vladyslav Heraskevych leve seu luto às pistas sem transformar o gesto em um apelo visual que rompa as regras da competição.
Resta acompanhar a reação do atleta e da delegação ucraniana, e observar como outras instituições e concorrentes irão interpretar o limiar entre expressão pessoal e regulamento. Nos Jogos, as pistas são palco de performance e a norma que as governa continua a moldar, com sutileza e firmeza, os contornos das manifestações humanas que aí se dão.






















