POR OTÁVIO MARCHESINI — Sondrio, 10 de fevereiro de 2026. Em uma noite que conjuga memória e simbolismo, Arianna Fontana garantiu mais um capítulo de excelência no short track ao faturar o ouro na prova de revezamento misto em Milano-Cortina. A conquista não é apenas um pódio olímpico: é a afirmação de uma trajetória que atravessa gerações e regionais, e que transforma uma atleta em testemunho coletivo.
Natural de Berbenno di Valtellina, Fontana voltou a trazer à sua vila natal um motivo de festa. Cerca de 150 estudantes do ensino fundamental se reuniram no palazzetto local para acompanhar a prova, convertendo o ambiente em arquibancada popular e fazendo ecoar o entusiasmo juvenil. Ao saber do veredito, o pároco da cidade, don Nicola, mandou tocar as sinos da igreja em celebração — um gesto que situa a vitória num plano comunitário, religioso e identitário.
Valeria De Gianni, amiga próxima de Arianna, resumiu com precisão a natureza dessa longevidade esportiva: “Ela está cada vez mais consciente de suas grandes capacidades, que recompensam os enormes sacrifícios para ser sempre a melhor”. Essa frase ilumina um aspecto frequentemente subestimado: a combinação de disciplina individual e suporte comunitário que sustenta carreiras longas em esportes de alto rendimento.
O prefeito Valerio Fumasoni não escondeu o orgulho: “É um grande orgulho para o nosso município, para toda a Valtellina e para a Itália. E estamos apenas no começo. Arianna está pronta para vencer de novo. Hoje fizemos um torcer de estádio, todos reunidos aqui aguardando o resultado”. Palavras que traduzem a vitória em termos de pertencimento local e projeção nacional.
Luca Fumasoni, presidente do fã-clube fundado anos atrás, já planeja a recepção: “Teremos que nos organizar para uma nova festa, para recebê-la de volta após as Olimpíadas”. O ritual de festa civil — fan club, prefeitura, igreja, escolas — revela como um resultado esportivo se converte em evento social, capaz de rearticular laços e narrativas coletivas.
Com a medalha de hoje, Arianna Fontana alcança a 12ª medalha em seis edições de Jogos Olímpicos de Inverno — um número que fala menos de estatística e mais de persistência, adaptação e transformação ao longo de duas décadas de competição. Em termos históricos, poucos atletas no esporte italiano conseguem costurar uma discografia olímpica tão densa, e isso nos dá pistas sobre a evolução do short track no país, da profissionalização de sua formação e do papel central das pequenas comunidades alpinas como Berbenno na reprodução de talentos.
Não se trata apenas de comemorar um pódio. Trata-se de reconhecer que, em um país onde a memória esportiva é frequentemente marcada por centros urbanos e clubes tradicionais, uma atleta de uma vila da Valtellina se torna símbolo nacional. As sinos que tocaram hoje são sinal de um orgulho que atravessa o local e ganha dimensão política e cultural: o esporte como espelho de uma comunidade capaz de produzir excelência.
Enquanto a cidade se prepara para festejar formalmente o retorno da campeã, a vitória de Arianna ilumina questões mais amplas — sobre longevidade atlética, redes de apoio locais, e o modo como heróis esportivos constroem e renovam a memória coletiva. Em Berbenno, a festa é imediata; a narrativa, duradoura.
Otávio Marchesini, Espresso Italia






















