Milano Cortina — Após o ponto decisivo que deu à Itália a vitória contra a Grã-Bretanha, a campeã Stefania Constantini cruzou o gelo com a compostura própria de quem entende o esporte como palco e memória. Dirigiu-se à área da imprensa, tocou o peito em sinal deliberado e apontou para as arquibancadas onde estava sua companheira de equipe, Angela Romei, excluída da lista para os Jogos por opção do diretor técnico.
O gesto de Constantini — simples, mas carregado de significado — foi também uma resposta simbólica ao episódio que dominou as conversas nas últimas horas: a escolha do técnico Marco Mariani, que optou por levar a filha, Rebecca Mariani, em vez de Romei. Sentada nas cadeiras para a transmissão, como comentarista da Rai, Angela Romei acompanhou o jogo de perto; Constantini reconheceu essa presença pública e íntima ao mesmo tempo.
“Nosso time teve, sem dúvida, um momento para recordar com a exclusão de Angela”, disse Constantini em entrevista após a partida. “Mas estamos prontas. No alto das arquibancadas esteve minha companheira de equipe e melhor amiga, Angela Romei, com quem eu gostaria de ter dividido esta experiência olímpica. Assim não será, mas eu a levo no coração. Ela me apoiou toda a semana e foi emocionante tê-la a olhar de cima. Esta vitória vai também para ela, além do meu namorado e da minha família.”
O episódio levanta questões que transcendem o resultado esportivo imediato. Em uma temporada em que a representação e a composição das delegações olímpicas são frequentemente vistas através das lentes da meritocracia, da política interna das federações e das pressões institucionais, a decisão de excluir uma atleta titular e colocá-la em posição de mídia — ainda que respeitável — abre espaço para debates sobre transparência e critérios de seleção. Para a equipe, porém, a prioridade é o gelo à frente: Constantini destacou que o grupo reconhece a importância do evento e que seguirá unido.
“Amanhã teremos a oportunidade de testar o gelo juntas e, com certeza, nos reuniremos ao término da competição”, afirmou. O tom conciliador da capitã aqui é relevante: em esportes de equipe, especialmente os que exigem sintonia fina como o curling, a coesão emocional e a confiança mútua são tão decisivas quanto a habilidade técnica. Levar o episódio para o terreno do diálogo e do respeito — como fez Constantini em suas palavras — é uma estratégia pragmática e simbólica.
Do ponto de vista social, a situação também espelha tensões recorrentes na cena esportiva italiana: laços pessoais que se entrelaçam com estruturas institucionais e escolhas que reverberam para além do campo de jogo. A presença de Angela Romei nas cabines de comentaristas, portanto, não é apenas um detalhe; representa uma posição ambivalente entre exclusão e visibilidade, entre ausência competitiva e presença mediática.
Enquanto a delegação italiana se prepara para os próximos compromissos em Milano Cortina, a declaração de Constantini funciona como um gesto de fechamento simbólico — e, ao mesmo tempo, como um lembrete de que o esporte é feito de decisões que deixam marcas humanas. A partida contra a Grã-Bretanha foi vencida no gelo; o desfecho humano da história ainda será escrito nas conversas internas e na memória coletiva da equipe.
Repórter: Otávio Marchesini, Espresso Italia






















