Por Giuseppe Borgo — Em mais um capítulo da tensão entre Roma e os efeitos práticos das decisões governamentais, o Governo decidiu hoje colocar o voto de confiança sobre o decreto que autoriza o envio de armamentos à Ucrânia. A iniciativa, anunciada pelo ministro da Defesa, Guido Crosetto, marca um confronto direto com os parlamentares que acompanham o general Roberto Vannacci e com a própria Lega.
O texto em questão é o decreto-lei “containing disposizioni urgenti per la proroga dell’autorizzazione alla cessione di mezzi, materiali ed equipaggiamenti militari in favore delle autorità governative dell’Ucraina, per il rinnovo dei permessi di soggiorno in possesso di cittadini ucraini, nonché per la sicurezza dei giornalisti freelance”. O dispositivo deverá passar pelo exame do Senado e precisa ser convertido em lei até 2 de março.
Segundo o calendário parlamentar, as declarações de voto sobre a confiança começam amanhã às 11h50. No entanto, o rumo do grupo de deputados que seguiram Vannacci permanece uma incógnita: eles têm adiado qualquer decisão definitiva, remetendo-se à orientação do próprio fundador do movimento Futuro Nazionale.
O deputado Edoardo Ziello foi claro ao dizer que a posição será definida por Vannacci: “O que votaremos amanhã em Aula? É objeto de decisão do nosso chefe da força política Fn, o general Vannacci, que me confirmou que nos dará uma indicação antes da chamada nominal”. O colega Rossano Sasso confirmou que está em fase de avaliação entre a componente parlamentar e o presidente do partido, prometendo comunicação antes da chamada em plenário.
Nas redes sociais, Vannacci já lançou sua linha de ataque: acusa a Lega de pedir a confiança precisamente para ocultar o voto de consciência — ou as ausências em plenário — de muitos leghistas desde 2022, que, segundo ele, seguem as orientações do partido mas mantêm reservas pessoais. “Eu sou sempre coerente com meus princípios e valores”, escreveu o general, antecipando a postura do seu grupo.
O ministro Crosetto reagiu às críticas com uma citação bíblica: “Não o sei; pelos frutos os conheceremos, como diz o Evangelho” — remetendo, com propriedade retórica, ao critério prático de avaliação de ações e alinhamentos políticos.
Em tom contundente, Ziello também atacou a coerência do líder leghista Matteo Salvini: “A coerência está a Salvini como a pontualidade está aos trens que ele deveria gerir como ministro dos Transportes”, ironizou no plenário. Para Ziello, a solicitação da confiança sobre o decreto evidencia um Salvini cada vez mais pressionado pelas próprias contradições: ter-se posicionado contra envio de armas e, na prática, pedir aos parlamentares do partido que votem a favor.
Do lado de Futuro Nazionale, Ziello lembra que já registraram Ordens do Dia que pedem a interrupção imediata das fornecimentos — um movimento que quer manter o foco na responsabilidade parlamentar: a arquitetura do voto deve claramente refletir os alicerces da lei e os compromissos internacionais do país.
O episódio expõe mais do que uma disputa interna: revela a tensão permanente entre a necessidade de decisões rápidas em matéria de segurança internacional e a construção de consenso político em Roma. A confiança, como uma espécie de cimento institucional, será aplicada para unir temporariamente as paredes do edifício legislativo; resta saber se, depois da votação, os divisores internos serão reparados ou se as fissuras permanecerão visíveis.
As atenções se voltam agora para amanhã, quando o Parlamento registrará a posição formal dos grupos. A votação no Senado e a posterior conversão em lei até 2 de março serão os próximos termos dessa disputa, que tem impacto direto nas relações de Itália com a Ucrânia e nas escolhas de política externa que pesam sobre a vida dos cidadãos, imigrantes e comunidades ítalo-descendentes.






















