Por Chiara Lombardi — Em Roma, a arte urbana encontra uma das suas heroínas mais autênticas. A exposição ANNAmo propõe um diálogo entre lembrança e contemporaneidade ao reunir quinze nomes da street art para reinterpretar a figura inesquecível de Anna Magnani, a eterna Nannarella, em seu bairro histórico: Via Margutta.
Montada nos espaços do Margutta Veggy Food & Art, a mostra acontece de 19 de fevereiro a 10 de maio de 2026 e foi idealizada por Tina Vannini e curada por Bruno Ialuna. O projeto convoca artistas como Maupal, Mauro Sgarbi, Mobydick, Elena Gallo, Giusy Guerriero, Sid, Ale Senso, Uman, Elisa Tamburrini, Diavu’, Rame13, Er Pinto, Miss K, Lediesis e Blub para traduzir, em linguagens urbanas e técnicas diversas, a potência dramática e a veracidade humana que marcaram a carreira da atriz.
O ano de 1956 foi um ponto de inflexão na biografia de Anna Magnani: com o Oscar de melhor atriz por La rosa tatuata e o Golden Globe por melhor atriz em filme dramático, sua voz e seu rosto tornaram-se símbolos mundiais do neorealismo e da intensidade emocional sem artifícios. Sete décadas depois, ANNAmo não apenas homenageia esses triunfos, mas também convida a uma releitura — como se o olhar da rua fosse um espelho que reflete e reescreve a memória coletiva.
“Um artista é uma coisa muito difícil da definir. Gli artisti sono degli egoisti…” — a frase que Anna Magnani proferiu em 1964 vence o tempo e sugere o mote da exposição: o confronto entre egos criativos que precisam, ainda assim, render-se a um tema central. Cada obra presente na exposição explora facetas como a beleza, a paixão, o sofrimento e a autenticidade — valores que atravessaram a vida e a carreira de Magnani, dentro e fora do palco.
Para quem observa com a curiosidade de uma crítica cultural, ANNAmo funciona como um pequeno compêndio de leituras possíveis. Em alguns trabalhos, Anna Magnani surge como ícone fotográfico transposto para a parede; em outros, é fragmentada em signos e símbolos que apelam à história social de Roma, à memória afetiva do cinema e à relação entre imagem pública e intimidade. As rugas, celebradas como topografia de uma vida intensa, tornam-se paisagens onde se lê um roteiro oculto — cicatrizes que contam um enredo de resistência e verdade.
Tina Vannini lembra que a escolha de Via Margutta não é casual: foi ali que Magnani viveu, amou e forjou laços artísticos fundamentais, entre eles o com Federico Fellini. Reunir street art e memória cinematográfica nesse cenário é devolver ao lugar um papel ativo na preservação de um patrimônio simbólico. O resultado é uma exposição que fala ao presente sem perder o peso histórico: imagens que dialogam com a cidade e reclamam o espaço público como sala de cinema aberta.
ANNAmo é, portanto, mais que homenagem: é um reframe da memória cultural, um eco que interroga o porquê do fascínio por Anna Magnani e celebra a sua permanência como referência de autenticidade. Para os visitantes, a experiência é dupla — contemplar arte urbana e, ao mesmo tempo, revisitar a semiótica de uma figura que continua a projetar luz e sombra sobre o roteiro da nossa modernidade.
Exposição: ANNAmo – La street art incontra Anna Magnani
Local: Margutta Veggy Food & Art, Via Margutta, Roma
Período: 19/02/2026 a 10/05/2026
Curadoria: Bruno Ialuna | Idealização: Tina Vannini
Artistas participantes: Maupal, Mauro Sgarbi, Mobydick, Elena Gallo, Giusy Guerriero, Sid, Ale Senso, Uman, Elisa Tamburrini, Diavu’, Rame13, Er Pinto, Miss K, Lediesis, Blub.





















