Por Riccardo Neri — A Agenzia Spaziale Italiana (ASI) lançou um programa estratégico destinado a preencher uma lacuna tecnológica crítica na cadeia aeroespacial nacional, financiando o desenvolvimento de bancos ópticos ultra-estáveis, peças estruturais essenciais para telescópios embarcados em satélites de observação da Terra. O contrato, no valor de 3,5 milhões de euros, foi atribuído à empresa parmense Bercella como Prime Contractor, com suporte técnico do grupo Leonardo.
Atualmente, a produção desses bancos ópticos espaciais depende de materiais especiais e know-how concentrado em poucos fornecedores internacionais. O programa bienal financiado pela ASI tem como objetivo internalizar esses processos, permitindo à Itália fabricar localmente soluções que até agora eram importadas. Isso busca reforçar tanto a competitividade industrial quanto a resiliência da cadeia de abastecimento para futuras missões espaciais.
O papel da Leonardo será validar requisitos aplicativos e assegurar conformidade com padrões internacionais, criando uma ponte entre as exigências de missão e a capacidade produtiva nacional. Essa colaboração entre grandes grupos e PMEs especializadas é tratada pela ASI como um componente essencial para construir um ecossistema espacial mais robusto e menos dependente de fornecedores externos.
O programa opera em dois vetores complementares: por um lado, a qualificação do estado da arte em materiais e processos produtivos de nova geração; por outro, uma linha de pesquisa focada na experimentação de resinas e materiais compósitos inovadores, priorizando fornecedores da cadeia italiana para otimizar performance e eficiência dos payloads.
Roberto Formaro, diretor da Direzione Ingegneria e Tecnologie da ASI, inseriu a iniciativa na roadmap óptica da agência, destacando que o projeto é um passo para “reforçar e inovar as capacidades nacionais em um setor fundamental como a observação da Terra”. Para Formaro, o aporte financeiro vai “acelerar o crescimento de uma cadeia industrial autônoma e competitiva”.
Massimo Bercella, CEO da empresa parmense, acrescentou que “trazer para a Itália uma tecnologia que hoje não existe no país significa fortificar um elemento crucial para a autonomia industrial”. O objetivo final é estabelecer uma cadeia produtiva nacional capaz de oferecer componentes de alto valor agregado a programas europeus e de responder ao aumento de volumes demandados pelo mercado global de dados por satélite.
Em termos de arquitetura industrial, esse esforço pode ser visto como a construção de alicerces digitais: ao internalizar a produção dos bancos ópticos, a Itália fortalece o sistema nervoso que conecta sensores espaciais ao fluxo de dados usado por governos, municípios e empresas. Não se trata apenas de tecnologia visível, mas de camadas de inteligência e engenharia que garantem previsibilidade, segurança e independência estratégica.
Do ponto de vista prático, a iniciativa deverá qualificar materiais e processos, reduzir riscos logísticos e criar competências que se traduzem em empregos especializados e em oferta industrial capaz de competir em programas internacionais. A integração de PMEs com grandes atores industriais cria uma malha produtiva que, se bem construída, amplia a soberania tecnológica da Itália no domínio da observação da Terra.
Este projeto é uma etapa deliberada na reconstrução dos alicerces industriais que sustentam a infraestrutura de observação terrestre europeia — um movimento que combina engenharia de materiais, processos de produção e validação sistêmica para garantir que os dados que alimentam políticas públicas e serviços urbanos não dependam de falhas na cadeia global.






















