Por Chiara Lombardi — Em um encontro que parece um cortejo da memória escénica, o Ballet Stars Gala – Omaggio alla Danza Classica desembarca no Auditorium Conciliazione para celebrar o repertório que moldou a estética do balé: do Lago dos Cisnes à Bela Adormecida, do Schiaccianoci (Quebra-Nozes) a Don Chisciotte, de Raymonda a Sylphide. Mais do que um desfile de títulos, o espetáculo propõe um espelho do nosso tempo — onde técnica, memória coletiva e novas leituras coreográficas se encontram.
No palco, nomes que chegam dos maiores teatros do mundo. A georgiana Nino Samadashvili, prima ballerina do Ballet Georgiano e discípula da lendária Nina Ananiashvili, retorna à cena italiana ao lado de Dmitri Smilevski, primeiro bailarino do Teatro Bolshoi de Moscou. A dupla apresenta o pas de deux do Corsaire e estreia uma peça contemporânea criada especialmente para eles: Other Little Stories, de Amilcar Moret Gonzalez, com música do saudoso Ezio Bosso. É essa mistura — o roteiro clássico e o sopro contemporâneo — que oferece um reframe da tradição.
Entre as presenças internacionais, destaca-se também Joy Womack, primeira bailarina americana diplomada com louvor na Accademia Statale di Coreografia di Mosca e ex-integrante do corpo de baile do Teatro Bolshoi. Sua trajetória, que inspirou o filme “Joika” (2023), é um exemplo de como o percurso artístico pode virar narrativas cinematográficas — um eco cultural entre palco e tela. Ao seu lado, Pavel Savin, primeiro bailarino do Teatro Nacional Croato e ex-solista do Teatro Mikhailovsky de São Petersburgo, acrescenta outro timbre à noite.
O elenco italiano também brilha: Camilla Mazzi, formada na Academia Estatal de Coreografia de Moscou e a primeira italiana a se apresentar no Teatro Mariinskij em 2017, volta ao centro das atenções. Seu parceiro será Tommaso Beneventi, atualmente no Ballet da Ópera Estatal da Baviera, sob a direção do ex-etoile do Palais Garnier, Laurent Hilaire. Juntos, representam a ponte entre a tradição europeia e a circulação contemporânea de artistas.
O espetáculo também coloca sob os holofotes a nova geração: os jovens talentos Aleksandra Treimane e Gennadijs Eisaks, com base em Riga e vencedores de competições internacionais, simbolizam a renovação do clássico. Entre outros convidados ilustres figuram os primeiros bailarinos do Teatro Nacional da Ópera e do Ballet da Lituânia, Nora Straukaitė e Oleg Legai.
Organizado e promovido pela BiletItalia, o Ballet Stars Gala funciona como um pequeno mapa do ballet global: uma constelação de trajetórias que reflete tanto o peso do cânone quanto a urgência de novas narrativas coreográficas. Assistir a essa noite em Roma é, portanto, mais do que ver passos bem executados — é ler o roteiro oculto da sociedade através do movimento.
Para o público, a promessa é de uma noite que alterna o conforto do conhecido e a surpresa do contemporâneo; para a crítica, uma ocasião para pensar como esses espetáculos continuam a mediar identidades e memórias coletivas. Em suma, um evento que reafirma por que o balé ainda é, no imaginário cultural, um espelho do nosso tempo.

















