Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um movimento que redesenha, de forma austera, um trecho da tectônica de poder dentro da justiça criminal europeia, as autoridades francesas anunciaram a prisão de Jacques Leveugle, nascido em 1946 em Annecy. O procurador de Grenoble, Etienne Manteaux, revelou que o acusado foi formalmente indiciado por estupro agravado e violência sexual cometidos contra 89 menores ao longo de cinco décadas, entre 1967 e 2022.
Os elementos que permitiram quantificar as vítimas emergiram de um núcleo documental encontrado em um pen drive (USB), composto por cerca de 15 volumes de memórias e anotações nas quais o suposto autor descreve relações sexuais com menores de idades entre 13 e 17 anos. O material, segundo o magistrado, foi descoberto pelo sobrinho do indiciado, que buscava entender aspectos da vida afetiva e sexual do tio.
Segundo o procurador, os crimes alegados não se limitaram ao território francês. O itinerário descrito nas memórias abrangeu uma cartografia internacional: Alemanha, Suíça, Marrocos, Níger, Argélia, Filipinas, Índia, Colômbia, França (com ênfase no sudoeste) e Nova Caledônia, onde o réu teria atuado frequentemente como educador. “Ele viajou por esses países e, em cada ponto de fixação, repetiu padrões de conduta: formar, encontrar jovens e manter relações sexuais”, afirmou Manteaux.
O percurso processual é marcado por etapas rigorosas: Leveugle foi inicialmente indiciado e colocado em custódia preventiva em fevereiro de 2024 por alegações relativas a crimes contra menores. Posteriormente, submetido a uma vigilância judicial estrita — medida que teria sido violada —, foi novamente detido em abril de 2025. Etienne Manteaux explicou que a divulgação pública dos fatos foi adiada até que os investigadores tivessem elementos concretos para abrir um apelo às eventuais vítimas. “Queríamos verificar a veracidade dos escritos antes de expor o caso”, disse o procurador, acrescentando que a investigação interna encontrou apenas fragmentos, nomes de batismo e referências que remontavam até 40 anos atrás, o que tornava a identificação das vítimas uma tarefa extremamente complexa.
À medida que o conteúdo do pen drive é examinado, a procuradoria estimou a existência de 89 menores mencionados nas memórias. O objetivo da convocação pública é permitir que aqueles que não puderam ser identificados até agora venham a público e forneçam testemunho. A chamada busca, portanto, não é apenas de provas, mas de pessoas — vítimas cujas vozes foram, por décadas, relegadas ao silêncio.
Durante os interrogatórios, Leveugle teria admitido ainda atos graves ocorridos em décadas passadas: o suposto assassinato da mãe, na década de 1970, e da tia, na década de 1990, ambos por asfixia com travesseiro. Essas confissões adicionam camadas ao caso, ampliando-o de uma investigação sobre predadores sexuais a um inquérito que abrange homicídios antigos.
Enquanto o processo se desenrola, a direção da acusação em Grenoble lança um apelo metódico e calculado: identificar e ouvir as vítimas, reconstruir itinerários e responsabilizar o autor por um padrão de crimes que atravessou fronteiras. Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro da justiça — não apenas para punir, mas para reparar, na medida do possível, as fraturas deixadas por décadas de impunidade.
O caso seguirá sob escrutínio judicial e mediático, com a expectativa de que o exame dos 15 volumes eletrônicos e os depoimentos que possam emergir levem à confirmação das alegações e à responsabilização plena do acusado.






















