Por Giuseppe Borgo — Em nova sessão marcada por tensão, o governo recorreu ao voto de confiança sobre o decreto Ucrânia, movida que as oposições e parcelas do próprio centro-esquerda avaliam como uma tentativa de tapar fissuras na maioria e de neutralizar debates parlamentares essenciais. A estratégia foi interpretada como uma cortina de fumaça para encobrir divergências internas, sobretudo após a insatisfação pública de três deputados de Futuro Nazionale e as manifestações de M5S e Avs.
Do lado progressista, o tom é de reprovação. Federico Fornaro, deputado do PD, definiu o tema da agressão russa à Ucrânia como “assunto que não deveria se prestar a jogos políticos” e reclamou que havia necessidade de “uma discussão verdadeira” no Parlamento. Para Fornaro, o recurso à fiducia foi motivado “pelo medo de emendas e pelo receio de ver uma maioria que cede ou apresenta votos dissidentes”.
Riccardo Ricciardi, líder do grupo do M5S na Câmara, foi ainda mais contundente: “Temos um governo que tem medo e não quer enfrentar um de seus maiores fracassos: a aposta na vitória da guerra. Veremos se haverá outro grupo de centro-direita ou se vão inflar o peito para depois fugir, ou ainda migrar para a oposição”.
Angelo Bonelli, de Avs, descreveu o episódio como “a deflagração da maioria”, apontando para uma luta de poder interna que agora se manifesta em plena sessão parlamentar. Bonelli pediu que a presidente Meloni esclareça em plenário qual é o novo perímetro da maioria, numa imagem que lembra a necessidade de reassentar os alicerces da lei e da coalizão.
Na leitura de Riccardo Magi (Più Europa), a manobra pode representar “uma porta aberta aos parlamentares de Futuro Nazionale”: ao permitir que votem contra o decreto mas a favor da confiança, o governo facilitaria alinhamentos táticos que não necessariamente traduzem coerência política.
Carlo Calenda lançou questionamentos diretos a Elly Schlein e Matteo Renzi: como pretendem construir uma maioria com Avs e M5S se esses partidos acabam por apresentar os mesmos emendamentos que o grupo ligado a Vannacci? “É implausível”, disse Calenda, apontando para as contradições que atravessam o campo progressista.
Do lado do centro-esquerda, as reações permanecem dispersas. Apesar de votar contra a confiança, o PD anuncia que vai apoiar o conteúdo do decreto em votação, mantendo uma coerência parlamentar já vista em passagens anteriores, segundo fonte interna do partido. O único projeto de ordem do dia apresentado pelo PD veio de Paolo Ciani, que tem histórico de posições divergentes em relação ao grupo: Ciani exige que o governo combine o apoio militar a Kiev com um “decidido reforço da iniciativa diplomática italiana, inclusive em instâncias europeias e internacionais, visando a cessação das hostilidades e negociações críveis para uma paz justa e duradoura”, além de proteger operações de ONGs e ações humanitárias.
O episódio evidencia que, enquanto a maioria no governo vive a instabilidade — com vozes divergentes e movimentos táticos —, o centro-esquerda também não consegue apresentar frente unida sobre a política em relação à Ucrânia. A situação exige clareza: sem ela, a arquitetura da coalizão corre risco de ver seus fundamentos corroídos, e a ponte entre decisões de Roma e a vida real de cidadãos e imigrantes – incluindo a proteção humanitária – permanece vulnerável.
Em termos práticos, o recurso à votação de confiança confirma o peso da caneta do Executivo para contornar dissensos imediatos. Resta ao Parlamento — e à sociedade que representa — cobrar que essa solução não substitua o debate necessário à construção de políticas externas e humanitárias sustentáveis.






















